CEMITÉRIO EM DOSE DUPLA
PUBLICAÇÃO
domingo, 21 de maio de 2000
Jackeline Seglin De Londrina 
O grupo londrinense Cemitério de Automóveis, radicado em São Paulo há quatro anos, apresenta hoje uma pequena amostra de um trabalho de 18 anos de carreira. Mais que isso, inicia a segunda parte de uma oficina de teatro coordenada pelo grupo, no Festival Internacional de Londrina.
Dirigido por Mário Bortolotto, o Cemitério de Automóveis encena a partir de hoje, no Núcleo I, duas peças recentes que fazem parte de um extenso repertório de espetáculos. Às 21 horas de hoje, o grupo apresenta Efeito Urtigão e amanhã, no mesmo horário, Felizes para Sempre. Com textos assinados pelo próprio Bortolotto, os espetáculos estrearam no ano passado em Londrina.
Para escrever Efeito Urtigão, o dramaturgo se inspirou no jornalista norte-americano Hunter Thompson, para ele, um profissional de mão cheia que optou por se isolar do mundo. Foi a partir desse fato que criou o personagem Marcão, um jornalista desiludido com a profissão e que vai morar no meio do mato, na companhia de um cachorro (a inspiração veio do personagem dos quadrinhos Urtigão).
É nessa fuga do jornalista que Everson, um colega de faculdade sem nenhum talento, almeja a chance de escrever a grande reportagem de sua vida. É uma peça muito existencialista exatamente o que estou trilhando agora na dramaturgia. Um texto curto, intimista e que valoriza o trabalho do ator, diz Bortolotto.
Na mesma linha existencial, o autor criou outras duas pequenas peças para o espetáculo Felizes para Sempre. Desta vez, Bortolotto colocou no papel uma visão sórdida do casamento. O Rei do Amor Está Morto (título de uma canção de Nina Simone) evidencia, de forma irônica e bem-humorada, o relacionamento de amor e ódio de um casal.
Mais pesada e violenta que a anterior, Sweet Emily aborda o mesmo conflito conjugal, calcado entretanto em uma relação um tanto estranha. É a história de um pugilista decadente e bêbado, casado com uma garota doce e compreensiva.
Em junho, Bortolotto leva as duas peças para uma temporada no Teatro Ágora, na capital paulista. Em seguida, faz uma mostra de 14 espetáculos no Centro Cultural São Paulo, com participação de 20 atores convidados. O repertório inclui desde a remontagem de Fábula Podre e Nossa Vida Não Vale um Chevrolet até a estréia de mais três peças.
Em Londrina, o Cemitério de Automóveis está coordenando uma oficina de dramaturgia e interpretação com participantes da região dos Cinco Conjuntos (zona Norte). Na semana passada, Bortolotto diz ter se deparado com experiências ousadas, apresentadas pelas 15 pessoas do grupo. Elas pareciam estar mais voltadas para uma oficina de interpretação, mas acabaram escrevendo e me surpreendendo, diz Mário, que leu, discutiu e analisou os textos escritos a partir de motes sugeridos por ele. Saíram coisas muito divertidas, já que eles têm uma visão mais escrota e nada romantizada das coisas. Vêem o mundo de forma cruel, mas realista.
Bortolotto avalia que o nível dos textos produzidos foi interessante. Melhor que muitos dramaturgos com experimentações ditas ousadas. Para ele, esta oficina não tem pretensão de formar dramaturgos. Ninguém aprende a escrever em oficinas. A gente tem é que estimular o talento de cada um e orientar para que sigam seu próprio caminho.
A oficina de interpetação que começa hoje será coordenadas pelas atrizes Fernanda DUmbra e Aline Abovsky. Elas vão trabalhar exercícios básicos de teatro, a partir dos textos criados anteriormente.
Efeito Urtigão e Felizes Para Sempre, com o grupo Cemitério de Automóveis. Textos e direção: Mário Bortolotto. Elenco: Mário Bortolotto e Joeli Pimentel (Efeito) e Christine Vianna, Joeli Pimentel, Fernanda DUmbra e Bortolotto (Felizes).


