CEMITÉRIO DANÇA SEM BLUES E VISITA O MONTE DAS OLIVEIRAS
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 07 de maio de 2001
Jackeline Seglin De Londrina 
O grupo Cemitério de Automóveis desembarca hoje no Filo para mostrar dois espetáculos: O Cara que Dançou Comigo, com uma trilha sonora alucinante, e Getsemâni, inspirado na Bíblia
O prêmio Shell de melhor autor teatral do ano 2000, Mário Bortolotto, está em Londrina para mostrar dois trabalhos inéditos na cidade. Com o grupo Cemitério de Automóveis, ele integra a programação de hoje da Sul Mostra Teatro do Festival Internacional de Londrina (Filo) com os espetáculos O Cara Que Dançou Comigo e Getsêmani. As montagens serão apresentadas, respectivamente, às 21 horas, no Cine-Teatro Ouro Verde, e às 23 horas, no Núcleo I.
Bortolotto foi escolhido o melhor autor da temporada 2000 em São Paulo pelo texto Nossa Vida Não Vale Um Chevrolet. Também no ano passado, uma mostra no Centro Cultural São Paulo com 14 peças do Cemitério de Automóveis (13 assinadas por Bortolotto) rendeu ao londrinense o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte de melhor autor de 2000 pelo conjunto de sua obra. O Cemitério de Automóveis foi criado há 18 anos em Londrina e há cinco vem cavando espaço na disputada cena teatral paulistana.
A última vez que o grupo mostrou seu trabalho no Paraná foi no ano passado. Agora, traz mais duas novidades cada uma em única apresentação. O Cara Que Dançou Comigo retrata a história de uma fotógrafa em busca de um lugar tranquilo para morar e que acaba ao lado de um veterano de guerra que faz de sua vida um campo de batalha. As vidas dos dois vão se cruzando de um jeito curioso, até pintar uma relação estranha entre eles, de repulsa e atração, diz Mário Bortolotto, que faz o papel de Mississipi.
Fernanda DUmbra interpreta Sônia, a fotógrafa workaholic que também não é das mais equilibradas. Mississipi transforma a vida dela num inferno. Mas quando começa a se sentir atraída pelo cara, ela acha que o único jeito de se aproximar é entrar na dele, conta a atriz.
Fugindo da linha blues e rocknroll marca dos espetáculos de Mário Bortolotto a trilha sonora de O Cara... é calcada basicamente em sons instrumentais. É uma trilha meio alucinatória. Precisava que a música passasse a loucura do personagem o tempo inteiro, explica o diretor.
O outro espetáculo da noite foi levado aos palcos pela primeira vez em abril deste ano, no Teatro Augusta de São Paulo. Getsêmani encerra a trilogia de Bortolotto sobre violência, solidão e morte, iniciada por Medusa de Rayban (1997) e Postcards de Atacama (1998). Nessa peça, terroristas culturais sequestram um editor de livros de auto-ajuda com o intuito de obrigá-lo a publicar autores decentes.
O editor Tomé (Henrique Stroeter) é levado para um cativeiro, onde é pressionado a mudar sua linha de publicações. Como o cara não cede, tem de passar por uma série de provações. Até que soltam em cima dele a Besta, personagem interpretado pelo cantor e compositor Carlos Careqa, conta Bortolotto. Os personagens de Getsêmani são batizados com nomes de apóstolos. Além de Tomé, entram em cena Mateus (Joeli Pimentel), Pedro (Bortolotto) e Tadeu (André Ceccato). O único que foge à regra é o personagem Wiltão, que leva o nome do próprio intérprete, Wilton Andrade.
Bortolotto faz uma metáfora bíblica ao remeter o título da peça ao episódio do Monte das Oliveiras, no qual Cristo rezou pedindo a Deus para que o livrasse do que estava predestinado. Nesse local, Cristo foi traído por Judas Iscariotes.
O grupo de Mário Bortolotto aproveitou a participação no Filo para realizar na cidade o projeto Cemitério em Cena, uma série de atividades que incluem o lançamento de um livro e a montagem da peça Curta Passagem com atores da comunidade. Amanhã, o grupo vai apresentar o espetáculo Efeito Urtigão, às 20h30, na Casa do Papai Noel.
O Cara que Dançou Comigo, com Mário Bortolloto e Fernanda DUmbra. Texto, direção, sonoplastia e iluminação: Mário Bortolloto. Operação técnica: Luciano Alves e Eduardo Strele. Getsêmani, com Henrique Stroeter, Mário Bortolotto, André Ceccato, Carlos Careqa, Joeli Pimentel e Wilton Andrade. Texto e direção: Mário Bortolotto. Produção: Fernanda DUmbra.


