CEM ANOS SEM NIETZSCHE
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 24 de maio de 2000
Nelson de Sá Agência Folha 
Começa hoje, com um Café Filosófico em São Paulo. Depois vêm lançamentos de livros diversos sobre Nietzsche, além de inéditos dele no Brasil, mais uma revista, um encontro com filósofos nietzschianos do mundo todo no Rio de Janeiro, outro com artistas e intelectuais, a começar por José Celso Martinez Corrêa, também no Rio.
A seguir, vem o novo filme de Júlio Bressane, Dias de Nietzsche em Turim, cidade onde o filósofo alemão escreveu algumas de suas maiores obras e sofreu o colapso que o obrigou a parar de escrever. Por fim, Gerald Thomas já promete espetáculo novo, Nietzsche contra Wagner, título do último livro do filósofo. São os cem anos da morte de Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900), que ajudou a desenhar o século 20.
Scarlett Marton, em torno de quem acontece o Café Filosófico, resume: O que aconteceu no século 20 é que, à figura de Nietzsche, colaram-se as mais diferentes imagens. O legado que ele deixou foi usado, até deturpado, das mais diferentes maneiras. Talvez a obra preste-se a isso, na medida em que não temos um pensador dogmático, com um sistema fechado. Nós temos um pensador que se põe, ele mesmo, permanentemente em questão.
O dia da morte foi 25 de agosto, mas as comemorações já começam. A professora Scarlett, da USP, estará lançando um livro, Extravagâncias. No Café, falará sobre As Provocações de Nietzsche. Extravagâncias e provocações são palavras que indicam bem o que promete o centenário. No evento de hoje, às 19h30 na livraria Cultura (Av. Paulista, 2.073, em São Paulo), elas serão centradas na crítica de Nietzsche aos dualismos, à maneira viciada de pensar, aos valores que ainda norteiam o comportamento, sobretudo à moral do ressentimento e ao cristianismo. Isso, para começar.
Extravagâncias e outro lançamento, Nietzsche e a Dissolução da Moral, de Vânia Dutra de Azeredo, abrem a coleção Sendas & Veredas, da Discurso Editorial. A coleção promete uma sequência de obras escritas a partir do Grupo de Estudos de Nietzsche, que junta todo mundo que mexe com Nietzsche no país. Com site próprio (www.fflch.usp.br/df/ gen/gen.htm), o grupo edita regularmente, há quatro anos, a revista Cadernos Nietzsche, que também está lançando nova edição.
Eles participam da organização, entre os dias 22 e 25 de agosto, do Congresso Internacional Nietzsche, da UERJ, que reunirá no Rio nietzschianos como Lacoue-Labarthe, da França, e Monica Cragnolini, da Argentina. Apesar do caráter internacional e de certa prioridade ao tema da formação humanística, ele poderá avançar em áreas incipientes, como a recepção de Nietzsche no Brasil. É o grande evento acadêmico do centenário.
Longe da academia, o Centro Cultural Banco do Brasil quer, para seu próprio evento, uma coisa mais ampla, que cubra os interesses variados de Nietzsche e as áreas que ele influenciou, no dizer do curador Guilherme Castelo Branco. A nossa idéia é mostrar como as pessoas foram afetadas por ele nesses campos da arte e do saber, os mais variados campos da modernidade. É um personagem que marcou a vida de muita gente, potencializou a vida de um sem-número de pessoas.
Estarão no CCBB, sempre no Rio, entre 23 e 25 de agosto, a estudiosa (e entusiasta) do anarquismo Margareth Rago, para falar sobre Nietzsche e a história, e a pintora Fayga Ostrower, para tratar de Nietzsche e as artes plásticas. Nietzsche do ponto da física, Nietzsche e a Vontade de Potência vistos sob o ângulo da biologia, Nietzsche e a política, a religião, a música - o encontro terá de tudo um pouco.
Para começar o ciclo, Zé Celso, talvez o artista brasileiro mais identificado com o filósofo alemão. Ele leu O Nascimento da Tragédia, diz, umas 20 vezes. Desenvolveu o costume de abrir Assim Falava Zaratustra aleatoriamente, antes de entrar em cena, atrás de alguma imagem para inspirar o dia. Demonstra predileção por Gaia Ciência, um livro de aforismos sobre a alegria, que leu quando estava na Grécia, viajando de ilha em ilha.
No CCBB, deve falar da leitura mais consciente que fez de Nietzsche nesta última década, nos espetáculos maiores de sua companhia, Ham-let, Bacantes e Cacilda!. Dioniso e Ariádne, que são estruturais no Nietzsche, que ele trabalha na obra toda dele, eu trabalhei nesses espetáculos. Cacilda! foi Ariádne, o encontro de Dioniso com Ariádne, o sim do sim.


