Se o acaso e a história permitissem a alguém perguntar à Ceci, o grande amor do Poeta da Vila, quem era Noel Rosa (1910-1937), a dama do cabaré certamente diria que adorava o boêmio, lamentando e chorando a separação.
É o que pediu o poeta em ''Último Desejo'', letra que encomendou ao parceiro Vadico que entregasse à Ceci, que recebeu o presente de despedida junto com a notícia da morte precoce de um dos responsáveis pelo samba moderno, além de aproximar o morro do asfalto.
''Se alguma pessoa amiga pedir que você lhe diga/Se me quer ou não, diga que você me adora/Que lamenta e chora a nossa separação'', imortalizou o amor na música que alimentou a rivalidade entre outras duas mulheres, Aracy de Almeida e Marília Batista, cantoras que se rasgavam, reivindicando o título de intérprete preferida de Noel.
Noel viveu pouco, 26 anos, mas exageradamente, como a produção musical que reúne mais de 200 composições gravadas. No ano do centenário de nascimento do compositor, a expectativa é de vários tributos. A primeira homenagem será a do berço do artista, a Vila Isabel, no Rio de Janeiro.
O compositor será homenageado pela Escola de Samba Unidos de Vila Isabel com o enredo ''Noel, a Presença do Poeta da Vila''.
A presença do poeta na estátua de bronze numa das ruas mais movimentadas ou nos desenhos de partituras nas calçadas de pedra portuguesa da comunidade, reivindicam o status de maior compositor da Vila.
Um samba-enredo à altura de um justo tributo ao poeta no sambódromo só poderia ser obra de outro baluarte da comunidade, Martinho da Vila, que não vencia a disputa de enredos há 16 anos.
O próprio Martinho afirmou que tudo o que quis foi fazer um samba à altura de Noel.
Ele espera levantar o público no sambódromo, cantando junto ''Se um dia na orgia me chamassem/Com saudades perguntassem/ Por onde anda Noel?/Com toda a minha fé responderia/Vaga na noite e no dia/Vive na terra e no céu''.
Entre as homenagens no ano do centenário do compositor, ''Feitiço do Noel'' é um blog criado pelos alunos de Documentação Gráfica e Audivisual das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha, Botafogo) e traz, além de histórias sobre o poeta, músicas e entrevistas.
Os 100 anos do nascimento do compositor também movimentam o mercado editoral. A editora Expressão Popular está lançando o livro ''Noel Rosa - Poeta da Vila, Cronista do Brasil'', do escritor, tradutor e professor Luiz Ricardo Leitão.
No livro, o autor insere Noel na galeria dos poetas e prosadores que, por meio da obra, contribuem para o entendimento do processo socioespacial do País.
Leitão recapitula a vida e o acervo musical do compositor numa digressão dos temas explorados por Noel em suas canções, que vão de assuntos amorosos aos mais prosaicos do cotidiano.
Para o público infanto-juvenil, uma boa dica é o livro ''Noel Rosa'' (2008), da série ''Mestres da Música do Brasil'', da Editora Moderna.
Muitos intérpretes gravaram Noel, mas o sonho de consumo dos admiradores do compositor é o box com 14 CDs ''Pela Primeira Vez'', da Funarte com a gravadora Vela, que reúne sua obra completa. A caixa pode ser comprada pela internet. São 229 faixas para ajudar a entender o porquê do legado para a MPB do compositor que nasceu na Vila e não vacilou ao abraçar o samba.

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