Entre os filmes que emocionam o público de maneira incomparável, há um italiano que invariavelmente aparece em primeiro lugar nas listas dos mais poéticos. ‘‘Ladrões de Bicicleta’’, parceria de Vittorio de Sica (1901-1974) com Cesare Zavattini (roteirista), é sem dúvida a síntese da obra do ator e diretor italiano que realizou 30 filmes entre 1939 e 1974. No último dia 7 de julho completaram cem anos de nascimento do diretor.
A vida e a obra desse mestre do cinema será esmiuçada hoje em um documentário inédito que o canal Eurochannel (TVA e Direct TV) exibe a partir das 20h30 (com reapresentação amanhã, às 7h30 e 16 horas). Em seguida, a partir das 21h30, o canal promete uma obra que marcou o primeiro encontro de De Sica com o companheiro Zavattini: ‘‘A Culpa dos Pais’’ (Bambini Ci Guradano, ITA, 1942, 90 min).
Trata-se de um drama familiar, carregado com o sentimentalismo à flor da pele típico dos italianos. Uma esposa (Nina) abandona o marido (Andrea) e seus filhos, passando a viver com o amante. Infeliz com a separação, Andrea confia as crianças a um colega e se suicida. Nina se arrepende, mas um de seus filhos se volta contra ela. No elenco, Adriano Romoldi, Emilio Cigoli, Ernesto Calindri, Isa Pola, Luciano de Ambrosis e Tecla Scarano. ‘‘A Culpa dos Pais’’ é o quinto filme de De Sica, inédito em vídeo e DVD no País, e será reapresentado na madrugada de quarta para quinta, às 2h30.
De Sica foi um dos cineastas que mostrou ao mundo o vigor do cinema italiano, talvez o mais poético entre as cinematografias européias. Vittorio nasceu em Sora, em 7 de julho de 1901, estreando no cinema como ator em 1917 no filme ‘‘Il Processo Clemenceau’’. Atuou em muitas comédias durante o governo fascista. Ótimo intérprete, atingiu o auge de sua carreira ao dirigir filmes marcantes do neo-realismo italiano, movimento estético surgido na Itália do pós-guerra, uma região devastada pelo embate com os aliados. O neo-realismo mostrava a Itália assim como ela era – ruas sujas, gente desempregada, fome, delírios, miséria interminável. Os atores não eram profissionais e a impressão causada nos espectadores era semelhante a dos cinejornais da época.
Com filmes como ‘‘Vítimas da Tormenta’’ e ‘‘Ladrões de Bicicleta’’, ele mostrou que a ilusão, tão própria ao cinema, poderia também ceder espaço ao lirismo da realidade. Sua visão despojada, seca, tão dura quanto eficaz, prosseguiu em seus trabalhos posteriores. Dirigiu Sophia Loren em ‘‘O Ouro de Nápoles’’, ‘‘Duas Mulheres’’, com o qual ela ganhou o Oscar, e ‘‘O Condenado de Altona’’. Com um olhar oscilante entre o drama e a comédia, conduziu Loren e Marcello Mastroianni em ‘‘Ontem, Hoje e Amanh㒒, ‘‘Matrimonio à Italiana’’ e ‘‘Os Girassóis da Rússia’’, além de atuar ao lado de Loren em ‘‘Aconteceu em Nápoles’’.
Como ator, protagonizou ‘‘De Crápula a Herói’’, de Roberto Rossellini, e atuou sob a direção de Marcel Ophuls. Seu último sucesso internacional como realizador foi ‘‘O Jardim dos Finzi-Contini’’, fita de 1970 que conquistou o Oscar, o terceiro de sua carreira (os outros foram para ‘‘Ladrões de Bicicleta’’ e ‘‘Ontem, Hoje e Amanh㒒). Dirigiu a brasileira Florinda Bolkan em ‘‘Amargo Despertar’’ e, apesar de ter sido reconhecido com três Oscar de filme estrangeiro, seus filmes nunca tiveram grande êxito comercial. Nos anos 70, ele teve que voltar a trabalhar como ator em filmes como ‘‘Anna de Brooklin’’, ‘‘Mamma Mia’’ e ‘‘Che Impressione’’, chegando a fazer produções sob encomenda para a atuação de Sophia Loren.
Apesar de ter feito concessões no fim de sua vida, Vittorio De Sica deixou obras inesquecíveis, que realizam retratos ao mesmo tempo cruéis e encantadores do que conhecemos por realidade. A morte atingiu o cineasta em 13 de novembro de 1974, em Paris.

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