'Cem Anos de Solidão': a América Latina em nossas veias
Hoje, não faltam coronéis para oferecer nossos minerais raros aos gringos, como as bananeiras do livro de García Márquez
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sábado, 29 de agosto de 2026
Hoje, não faltam coronéis para oferecer nossos minerais raros aos gringos, como as bananeiras do livro de García Márquez

Já falei algumas vezes da série "Cem Anos de Solidão." Revisitar a obra de Gabriel García Márquez faz correr mais forte o sangue latino-americano.
Esse não é um fenômeno novo nem velho. No atual contexto, quando Donald Trump resgata a Doutrina Monroe, de 1823, que prega o domínio dos EUA sobre a América Latina, só não observa o quanto isso é obsoleto quem ainda nos toma apenas como plantadores de banana, com todo respeito às bananeiras.
Hoje, para nossa infelicidade, não faltam coronéis para oferecer nossos minerais raros, essenciais para a tecnologia de ponta, aos gringos, de bandeja, lá pelas bandas de Goiás, como se vivêssemos em Macondo.
Mas política e dominação é assunto de amargor traumático, embora necessário, e prefiro lembrar do último episódio de "Cem Anos de Solidão" na Netflix, exibido na quarta-feira (26), encantada pela cumbia colombiana de Lucho Bermúdez que embalou um baile num bordel temático, decorado com animais de zoológico empalhados.
Alguém já disse que nós, latino-americanos, devemos mesmo explorar nosso realismo mágico, essa imaginação que mescla cultura indígena e, infelizmente, maus tratos colonialistas, numa cultura tão vibrante quanto o quadril das mulheres dançando rumbas e cumbias, homens que passam da bravura à doçura, matriarcas que amassam pães e temperam consciências.
Tive minha porção latino-americana ressaltada na juventude universitária, quando a música do nosso continente vazou politicamente para todos os países hermanos. Nos conectamos com compositores argentinos, chilenos, colombianos, cubanos, conhecemos instrumentos como a charanga, que meu saudoso amigo José Antonio - formado em Medicina na UEL e que exerceu a profissão em Cambé até falecer há poucos anos - aprendeu a tocar para acompanhar rodas que de violão passaram a vários instrumentos. Eram festas de muitas vozes, incluindo a minha, para cantar as músicas do grupo Tarancón e Violeta Parra para celebrar nossa cultura, resgatando o que havíamos perdido mascando chiclete mas, depois, recuperamos bebendo cuba libre.
Quem não viveu, não sabe. Mas foi também com música que uma revolução perspicaz planou sobre o Brasil até os anos 1980, quando as Diretas Já nos libertaram daquele jugo fomentado pelos gringos que nunca estiveram aqui apenas a troco de bananas, como na história da United Fruit Company, do livro de Márquez . Eles sempre quiseram, e ainda querem, muito mais, querem minérios, água doce, petróleo, madeira. Querem a obsoleta Doutrina Monroe como marco reinaugural do domínio.
Por isso, emocionei-me até as raízes históricas, culturais, políticas e antropológicas quando ouvi a cumbia colombiana "Danza Negra", de Lucho Bermúdez, no último episódio de "Cem Anos de Solidão", a recomendo para o próximo show da cantora londrinense Tetê Devides. A música é um resgate de nossas raízes, uma arma sem lâminas numa roda de violões e charangas.
E alguns dirão:
- Ah! Célia, mas você é de esquerda!
Eu digo:
- Sou latino-americana e não estamos à venda.


Celia Musilli
Editora de Cultura e colunista.


