Já falei algumas vezes da série "Cem Anos de Solidão." Revisitar a obra de Gabriel García Márquez faz correr mais forte o sangue latino-americano.

Esse não é um fenômeno novo nem velho. No atual contexto, quando Donald Trump resgata a Doutrina Monroe, de 1823, que prega o domínio dos EUA sobre a América Latina, só não observa o quanto isso é obsoleto quem ainda nos toma apenas como plantadores de banana, com todo respeito às bananeiras.

Hoje, para nossa infelicidade, não faltam coronéis para oferecer nossos minerais raros, essenciais para a tecnologia de ponta, aos gringos, de bandeja, lá pelas bandas de Goiás, como se vivêssemos em Macondo.

Mas política e dominação é assunto de amargor traumático, embora necessário, e prefiro lembrar do último episódio de "Cem Anos de Solidão" na Netflix, exibido na quarta-feira (26), encantada pela cumbia colombiana de Lucho Bermúdez que embalou um baile num bordel temático, decorado com animais de zoológico empalhados.

Alguém já disse que nós, latino-americanos, devemos mesmo explorar nosso realismo mágico, essa imaginação que mescla cultura indígena e, infelizmente, maus tratos colonialistas, numa cultura tão vibrante quanto o quadril das mulheres dançando rumbas e cumbias, homens que passam da bravura à doçura, matriarcas que amassam pães e temperam consciências.

Tive minha porção latino-americana ressaltada na juventude universitária, quando a música do nosso continente vazou politicamente para todos os países hermanos. Nos conectamos com compositores argentinos, chilenos, colombianos, cubanos, conhecemos instrumentos como a charanga, que meu saudoso amigo José Antonio - formado em Medicina na UEL e que exerceu a profissão em Cambé até falecer há poucos anos - aprendeu a tocar para acompanhar rodas que de violão passaram a vários instrumentos. Eram festas de muitas vozes, incluindo a minha, para cantar as músicas do grupo Tarancón e Violeta Parra para celebrar nossa cultura, resgatando o que havíamos perdido mascando chiclete mas, depois, recuperamos bebendo cuba libre.

Quem não viveu, não sabe. Mas foi também com música que uma revolução perspicaz planou sobre o Brasil até os anos 1980, quando as Diretas Já nos libertaram daquele jugo fomentado pelos gringos que nunca estiveram aqui apenas a troco de bananas, como na história da United Fruit Company, do livro de Márquez . Eles sempre quiseram, e ainda querem, muito mais, querem minérios, água doce, petróleo, madeira. Querem a obsoleta Doutrina Monroe como marco reinaugural do domínio.

Por isso, emocionei-me até as raízes históricas, culturais, políticas e antropológicas quando ouvi a cumbia colombiana "Danza Negra", de Lucho Bermúdez, no último episódio de "Cem Anos de Solidão", a recomendo para o próximo show da cantora londrinense Tetê Devides. A música é um resgate de nossas raízes, uma arma sem lâminas numa roda de violões e charangas.

E alguns dirão:

- Ah! Célia, mas você é de esquerda!

Eu digo:

- Sou latino-americana e não estamos à venda.

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