Arquivo FolhaFrancisco Alves: sua morte prenunciou o fim dos anos de ouro do rádio brasileiroO automóvel Buick deslizava em alta velocidade pela Dutra, entre Taubaté e Pindamonhagaba. Repentinamente, o motorista - conhecido pela habilidade no volante - foi surpreendido por um caminhão que se lançara na contramão para escapar de uma manobra malfeita por um outro carro, um Mercury. O Buick e o caminhão se chocaram fora da pista. O acidente encerrou a carreira de Francisco Alves, o ‘‘Rei da Voz’’, que morreu carbonizado. Era o dia 27 de setembro de 1952, e a morte do cantor causou comoção nacional.
Conhecido como uma das maiores vozes do rádio, Francisco Alves cantou de samba-canção a bolero. A empostação operística ditava as vozes da época, e o cantor dominava o estilo em canções boêmias, temperadas pela dor-de-cotovelo. A morte repentina, no auge da fama, aumentou o status de mito. Francisco Alves ainda hoje vende discos.
O cantor nasceu há exatamente cem anos, no dia 17 de agosto de 1898. Descendente de portugueses, começou a cantar na rua por alguns trocados. Na juventude, fez de tudo um pouco, até pontas em peças de teatro. Mas o Chico Viola, como era chamado, gostava mesmo de frequentar a boemia do Rio de Janeiro, sempre acompanhado pelo violão.
A carreira deslancharia quase por acaso. Em uma serenata, Chico Alves foi ouvido por empresário que o convidou para trabalhar junto com Vicente Celestino. Como o astro passaria algum tempo fora, excursionando pelo País, Francisco Alves o substituiu nos espetáculos do Teatro São José.
A fama veio rapidamente e Chico Viola desatou a vender discos. O sucesso durou mais de 30 anos, amparado por gravações de compositores como Ary Barroso, Lamartine Babo e Orestes Barbosa. Francisco Alves foi um dos principais representantes do time que reunia grandes cantores brasileiros como Carlos Galhardo, Orlando Silva, Silvio Caldas e Vicente Celestino.
Sua influência era tão grande que se tornou um dos responsáveis pelo lançamento de Orlando Silva como intérprete. O primeiro encontro de Silva e Alves ocorreu dentro do carro do ‘‘Rei da Voz’’. O principiante cantarolou ali mesmo uma melodia. Chico Alves gostou e o levou ao seu programa de rádio para uma apresentação.
O cortejo que acompanhou o corpo de Francisco Alves pelas ruas do Rio de Janeiro, então Capital Federal, demorou quatro horas e foi transmitido ao vivo pelas rádios paulistas. A morte do cantor, que se apresentava sorridente com os cabelos empastelados de brilhantina, foi o prenúncio do fim dos anos de ouro do rádio brasileiro.

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