Edson Celulari esperou cinco anos para interpretar Don Juan: um papel que exige muito do ator‘‘Don Juan é o símbolo da aventura humana, pela qual vale a pena viver’’, escreveu o crítico Sábato Magaldi, em 1970, sobre o personagem-título da peça escrita por MoliSre. Vinte e sete anos após esse texto ter sido escrito, o espetáculo cumpre carreira com o ator Edson Celulari no papel de Don Juan. A montagem chega a Curitiba para duas únicas apresentações: hoje e amanhã no grande auditório do Teatro Guaíra.
O personagem fascinava Celulari que aguardou por mais de cinco anos o momento certo para interpretá-lo. Seria mais ou menos como fazem os cantores líricos que esperam pela maturidade vocal e interpretativa para defender determinado papel.
Um encontro entre o ator e o diretor Moacir Chaves foi fundamental para que ‘‘Don Juan’’ passasse a existir. Ambos descobriram afinidades quanto ao espetáculo, ou seja, revelar na encenação a essência que o texto abriga, seja no humor fino e sarcástico de MoliSre, ou em sua tragédia que também remete às profundezas.
DesejosPara Chaves a característica principal de Don Juan é a necessidade em satisfazer seus próprios desejos, derrubando toda e qualquer regra moral ou social. Embora seja um homem ‘‘sem compaixão’’, segundo as palavras do diretor, ele não precisa necessariamente representar a ‘‘encarnação do mal’’.
É um homem voraz que se deixa levar pela ânsia dos desejos, e nessa viagem rumo ao prazer, amesquinha-se. Não leva em consideração o outro. Na visão do diretor, por nunca se submeter ao respeito e à vontade dos que o cercam, Don Juan desconhece o que é o amor. A incapacidade o tolhe e o condena: ‘‘A sua faculdade de seduzir é expressão de sua extrema solidão’’.
LendaA figura de Don Juan tem origem no imaginário europeu da Idade Média. Por essa época circulava a lenda de que um jovem muito folgado, no dia do seu noivado, esgueirou-se para dentro de um cemitério, profanou uma tumba e, numa brincadeira macabra, convidou a morte a participar do seu banquete de casamento.
Quando, tempos depois, ele se casa, o fantasma da morte aparece em plena festa. Gentil, convida o rapaz para irem cear juntos no mesmo cemitério. Este aceita e vão para o banquete, mas lá chegando o rapaz desaparece bruscamente, levado pelas trevas.
Um jesuíta da Baviera escreveu uma peça em 1515, com esta temática. O jovem pervertido era Conde Leonce. Ao se deparar frente a frente com o espectro de seu ancestral, ouve dele que a alma é imortal e as chamas do inferno consomem eternamente os pecadores.
O espetáculo que estará no Guairão, no final de semana, tem tradução de Millôr Fernandes, cenários e figurinos de Daniela Thomas, iluminação de Aurélio de Simoni. Os cuidados técnicos emolduram as atuações de Edson Celulari e Cacá Carvalho que lideram um elenco formado por Gisele Fróes, Marcelo Escorel, Ludoval Campos, Totia Meireles, Ana Barroso, Henri Pagnoncelli e Luis de Lima.

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