Celso Fioravante
Agência Folha
Cerca de dez anos depois de ter assombrado o mundo com as cifras astronômicas conseguidas nos leilões de Nova York, o impressionismo volta a surpreender. Contrariando os mais céticos, que julgaram aquele momento como mais uma anomalia dos exagerados anos 80, o movimento ainda hoje atrai o público, o mercado e a crítica, que vê o impressionismo como uma constante fonte de inspiração.
O impressionismo surgiu em um momento em que a pintura precisava refazer seus estatutos estéticos e poéticos, já que a fotografia cumpria melhor o papel de reprodutora da realidade. É o momento em que a pintura se liberta do real e consegue uma bagagem poética nova. A fotografia hoje faz o mesmo caminho, disse a curadora Lisette Lagnado.
Parte da fotografia atual busca a decomposição da unidade do traço e da luminosidade e trabalha com o desejo de dissolver os limites entre as paisagens interior e exterior. Existe o desejo dela em se afirmar como uma linguagem poética autônoma e, assim como a pintura impressionista, tornar visíveis coisas que escapam ao olhar, complementou. Vale ainda lembrar que impressionismo e fotografia estiveram muito ligados. A primeira mostra impressionista, por exemplo, em 1874, aconteceu no estúdio do fotógrafo Nadar.
Segundo o diretor do MAC-USP, Teixeira Coelho, o impressionismo influencia a produção artística contemporânea em vários níveis: conceituais e estéticos. Os impressionistas trabalhavam com a desconstrução do visível, que é a pedra de toque da atual produção artística. Também o fato de não ocupar toda a tela, de deixá-las inacabadas, por assim dizer, foi incorporado pela arte hoje, disse Teixeira Coelho.
O mercado também tem se mostrado ávido por telas impressionistas. Embora o recorde conseguido pelo retrato do dr. Gachet, realizado por Van Gogh, esteja imbatível desde 90, em novembro último um auto-retrato do pintor conseguiu US$ 71,5 milhões e, em maio, Cézanne bateu seu recorde mundial ao ter seu Natureza-Morta com Cortina, Jarro e Cesta de Frutas vendido em Nova York por US$ 62,5 milhões.
O impressionismo fascina o espectador, pois é o movimento que mais apostou na procura do belo, que é o impulso básico de toda produção artística, mesmo neste final de século 20. É um anseio que é estrutural à nossa cultura, disse Teixeira Coelho.
Segundo o professor Gilson Pedro, do Scriptorium de Arte, que realiza frequentemente cursos sobre o tema, o impressionismo marcou sua influência ao dar à pintura uma nova velocidade, reflexo da rapidez das mudanças climáticas, que protagonizaram muitos trabalhos do movimento. A necessidade de buscar o plein air, a luz natural do dia, transformou totalmente a arte, que precisou se fundamentar em uma nova velocidade. Os artistas acompanharam essa rapidez com suas pinceladas, para assim congelar instantes fugidios, disse.





