"- Ultimamente, disseram que os feitios de sentir eram tão diferentes em cada raça humana, que era o bastante para fazer não se entendessem elas... Que há, de fato, mais de um sentir, de um pensar, para cada raça, etc, etc. Ora, em face do nosso povo, tão variado, eu tenho reparado que nada há que as separe profundamente. E nós nos entenderíamos e preencheríamos facilmente o nosso destino, se não fora a perturbação que trazem os diplomatas viajados, acovardados diante da opinião americana, querendo deitar esconjuros e exorcismos." (Vida e Morte de M.J.Gonzaga de Sá/1919)

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"Nestor é bem um amigo dessa forma, porque ele o soube ser de um pobre preto que teve audácia de fazer versos, e foi excomungado por ser preto e fazer versos, como se neste país todos nós não fossemos mais ou menos pretos e todos nós não fizéssemos versos." (Impressões de Leitura/1956)

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As obras de Lima Barreto (1881-1922) ressoam no século 21 como testemunhos de um conflito racial, determinado por discriminação ainda presente. Na semana da Consciência Negra pensei em exaltar a contribuição dos negros na cultura brasileira, sem eles, seríamos muito menos, eles nos qualificam. O que seria do Brasil sem Pixinguinha, Augusto dos Anjos, Cartola, Elizeth Cardoso, Elza Soares e tantos outros? Um país onde ficaria faltando a luz de talentos irrefutáveis.
Mas é em Lima Barreto que encontro a voz que muitos fingem não ouvir, porque no Brasil há um simulacro de igualdade que nunca se cumpre, um simulacro que "faz de conta" que somos todos iguais, mas o racismo explode muitas vezes em estádios de futebol, clichês, piadas sobre negros e discriminação pura, sem nenhum disfarce ou humor.
Sempre tenho dúvidas se tocar em racismo o exalta ou se põe as coisas no lugar, os pingos nos is, para dizer que temos sim é a consciência de que há um longo caminho a percorrer, muita coisa a conquistar, muita violência a ser transformada em condição igualitária de verdade. No Brasil a violência permanece como um marco de apartheid que se não toma a forma do preconceito vivido por Lima Barreto, nos séculos 19 e 20, eclode de outro modo ainda como ferida aberta.
Vai daí, que decidi falar do preconceito ao mesmo tempo em que enalteço valores culturais inegáveis que enriquecem o Brasil em vários campos, ajudando a constituir uma identidade que seria bem mais fraca sem estes expoentes.
Lima Barreto, filho de uma ex-escrava e um português, foi um dos críticos mais brilhantes da Velha República, um dos principais escritores e jornalistas dos anos que sucederam a Abolição, mergulhados no ranço e na discriminação racial. Por causa do alcoolismo foi internado em manicômios, testemunhando e criticando a Eugenia, teoria formulada na Europa para manter o racismo e justificá-lo cientificamente. Neste período, assim como por muito tempo, negros, pobres e indigentes foram internados sem sofrer de nenhuma doença psíquica, formando a "massa da loucura" pautada por preconceito. Isso continuou no Brasil até o fechamento dos hospícios determinado pela Lei Antimanicomial, mas prevalece em outras instâncias na forma de apartheid.
De tanto se falar, denunciar e legislar em favor dos negros, o Brasil melhorou nas últimas décadas, mas isso é parte de uma história recente. Ainda vai longe o tempo de modificar as estatísticas que mostram, por exemplo, que as maiores vítimas de crimes no Brasil são jovens pobres e negros das periferias que têm entre 15 e 25 anos.
Vista assim, a condição dos negros é ainda periférica sem que se faça muito para modificar uma estrutura que contribui para um permanente massacre. Estão aí os presídios que, no lugar dos manicômios, recolhem a massa se não da loucura psíquica, da neurose social que discrimina por raça há gerações, alimentando uma espécie de Eugenia disfarçada. Já vão longe os dias em que se pregava "cientificamente" a superioridade dos brancos, mas não tão longe que não se possa sentir na pele seu espectro, como um fantasma que assombra a cultura e as relações sociais batendo à nossa porta cotidianamente.

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