CÉLIA MUSILLIA - República e o monstro
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sábado, 20 de junho de 2015
Um monstro saiu do pântano político do país e tem comandado as forças no Congresso Nacional. Sua cabeça é formada pelas forças religiosas obscuras, sua cauda pela bancada ruralista em seu viés mais conservador, conhecido como "bancada da bala", pelo que empreende de tomada e grilagem de terras à força. O "crocodilo" emerge de águas profundas que correm há muito tempo nos subterrâneas da nação.
Na quarta-feira, quando terminou a votação pela aprovação da redução da maioridade penal, ouviu-se a bancada da bala entoando o refrão "sou brasileiro, com muito orgulho", repetido à exaustão nos estádios de futebol. Então, tive o vislumbre do monstro político que rege as demandas do país no momento. Estamos à mercê de uma força nascida, por um lado, nos palcos das igrejas fundamentalistas que há muito tempo se assemelham a um show televisivo de proporções desastrosas e manipuladoras. De outro, há na política nacional uma mentalidade de disputa esportiva inconsequente - que se assemelha à disputa de terras - numa mistura de corrupção e CBF, que é a cara da bancada da bala no momento em que ela canta seu hino de vitória.
Sempre achei de mau gosto o refrão "sou brasileiro com muito orgulho", não só pela letra ufanista, mas pela entonação monocórdica que mais me parece o lamento de um rebanho, um "berro" passivo. O quadro é assustador e demanda uma luta que una até mesmo alas divergentes em matéria de condução política para que um risco maior não se configure como um erro sem volta. Há um quadro apocalíptico ameaçando neste momento quem quer que pense em avanços de ordem política e cultural. Estamos à mercê do conteúdo de um ovo que se partiu para mostrar de quantos crocodilos é feito hoje o panorama político nacional. Há risco de retrocesso total, beirando às demandas da Idade Média numa projeção para a Idade Mídia, onde as forças da religião e do pensamento conservador se unem para o atraso total.
É certo que não será inchando as prisões que vamos resolver o problema da criminalidade. O Brasil, no momento, tem um péssimo modelo prisional que não está recuperando ninguém, ao contrário, comandadas pelo crime as prisões mais se assemelham a escolas de marginalidade do que de recuperação. Enviando para a prisão brasileiros cada vez mais jovens, a legislação vai favorecer, na contrapartida, o aliciamento de pessoas também cada vez mais jovens pelo crime, tendo em vista que os menores têm tratamento diferenciado em casos de infração da lei. Isso já acontece, com organizações criminosas envolvendo em sua malha jovens com menos de 18 anos. Agora será o momento de aliciarem os que têm menos de 16 e as cenas de meninos e meninas de 12, 13 anos com armas na mão, ostentando o poder da marginalidade, serão cada vez mais comuns.
O que vimos esta semana no Congresso Nacional demanda o luto de qualquer cidadão consciente. Duas forças retrógradas se uniram pela redução da maioridade penal e isso é só o começo de uma série de retrocessos que transformam o Congresso Nacional em cenário de fervorosas demonstrações de fé sem coração. Não basta rezar o Pai Nosso, é preciso interpretar com clareza o amor ao próximo. No momento em que deviam pensar em educação, pensam na prisão e matam o sonho de transformar o país a partir de sua juventude, nossa força para a construção do futuro. Estamos encarcerando essa possibilidade em vez de ampliá-la. Prestem atenção: a aprovação da redução da maioridade penal significa simplesmente enfiar na cadeia a parcela mais vulnerável da juventude brasileira. Isso não corrige ninguém e será outro erro sem volta. São os crocodilos mastigando a esperança.
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