CÉLIA MUSILLIA - Política dos mutantes
No processo eleitoral conhecemos a melhor e a pior das intenções. Desmancham-se as máscaras, secam os poços de virtude, ética é artigo de luxo, as contradições saltam aos olhos em campanhas, discursos e propagandas.
Escorregões não faltam aos partidos e aos candidatos. Primeiro a campanha de Marina Silva esticou cordas para se enforcar quando publicou um programa em favor das políticas homossexuais que depois pareceu ousado demais para uma candidata que traz também consigo segmentos religiosos e conservadores. O casamento gay e a criminalização da homofobia, em pauta num primeiro momento, foram artigos suspensos num segundo ato em favor de propostas menos ousadas para uma sociedade que, de modo geral, ainda se espanta com beijo gay na TV. Dizem que as twuitadas do pastor Silas Malafaia fizeram Marina recuar. O partido e candidata deram outra versão: a de que uma proposta na íntegra, escrita pela comissão gay da campanha, havia sido publicada no lugar de um programa mais enxuto votado posteriormente. Não podemos ser ingênuos, tampouco injustos. Não aposto em nenhuma versão integralmente, acostumada ao jornalismo e às publicações sei que é possível a troca de textos e de imagens em qualquer meio. Erros deste tipo encontram-se com frequência em jornais e sites. Mas em política, como se sabe, a errata tem um preço mais alto.
Da minha parte, acho que alguém deveria dizer a Malafaia que o melhor a fazer por um candidato é ficar calado. Ninguém o deseja com fervor, a não ser seus seguidores entre os quais não incluo nenhum dos candidatos à presidência. Há diferenças a serem consideradas.
Se Marina escorregou numa casca de banana, não demorou muito para que Jean Wyllys, ex BBB, deputado federal pelo PSOL/ RJ e apoiador de Dilma Rousseff, também tropeçasse. Na última semana, uma peça de propaganda falsa de dois candidatos, Édino Fonseca (PEN/RJ) e Ezequiel Teixeira (Solidariedade/RJ), ligava Marina Silva a políticas homofóbicas. Não tardou para que Wyllys criticasse a candidata. Poucos dias depois, coordenadores da campanha de Marina pediram a apreensão do material apócrifo, considerando crime a ação dos candidatos fluminenses. Foi então que Jean Wyllys veio a público abordar como um feito seu ter "denunciado" o material mentiroso. Ocorre que antes a sua "denúncia" tinha tom de acusação e o candidato não se saiu assim tão bem da história.
Em política cada um vende a imagem que convém. Nestas eleições, as saladas mistas andam bem estranhas, não faltam opções exóticas como candidata ateia frequentando templo religioso e pedindo a Deus que a "proteja em sua campanha", além de encomendar "orações aos fiéis". Até Cristo ficaria vermelho se fosse consultado.
O único caminho é apostar na história de cada um, isso significa mais do que as atitudes e os impulsos de última hora que transformam campanhas em peças bizarras, em diz-que-diz que não se sustenta, em colchas de retalhos cujo desenho final são partidos com aparência de Frankenstein. As alianças políticas resultam num produto genético que a biologia desconhece, DNAs onde se adivinham cruzamentos de mamíferos muitos mamíferos com aves de rapina.
Daqui a poucos dias conheceremos parte do resultado destas eleições. Até lá, não vão faltar contradições, escorregões, gafes que dão à política uma configuração de humor, prato cheio para comediantes atentos aos "malabaristas" da vez. Da minha parte, contento-me em ser apenas público e rio quando vejo uma velha raposa travestida de Chapeuzinho Vermelho. Um olho de lobo, bem grande, é insuficiente para reconhecer as identidades mutantes.
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