Célia Musilli Os passageiros de 'Nadja'
Acabo de ler Nadja, de André Breton. O romance surrealista, publicado em 1928, chega tardiamente em minha vida, como personagens do livro que se encontram e se desencontram, em atrasos talvez premeditados. Os acasos tornam-se assim o centro de muitas ações. Os acasos, corrompendo o ''tempo de fazer as coisas'', são tão valorizados por Breton como recados que nos assaltam, vindos do inconsciente, do desejo puro, sem passar pelos filtros da razão, como nos sonhos.
Nadja é uma personagem onírica, uma metáfora da liberdade, uma jovem que o narrador encontra pelas ruas de Paris e o leitor nunca sabe se foi mesmo um encontro, sonho ou imaginação. Imagens saltam do texto como recursos pictóricos acoplados ao ato da escrita, ao mesmo tempo em que várias fotografias estão no livro como um testemunho da ''realidade''. Então, o leitor fica ali, entre a realidade e o sonho, num processo de literatura em trânsito, inaugurado por Breton que implode as narrativas tradicionais, romanescas, com esta obra.
Entre as imagens recorrentes há mãos, o fogo e água, num viés de alucinação da personagem em estado delirante em algumas passagens. Entre as imagens há também as ruas e locais de Paris, num romance francamente urbano em que o espaço e a arquitetura são tão personagens quanto as pessoas, sendo o flanar por tantos lugares um retrato em movimento do sentido de ser livre. Caminhar é viver e ousar.
Nadja é um manifesto de liberdade, do sujeito sem limites, do autor que voa, da imaginação fecunda. É o libelo contra as amarras do ser no mundo, a inauguração de um jeito novo de encarar a loucura. Sade, Baudelaire e Artaud são evocados no livro, fazendo o trânsito entre a loucura e a criação. Breton, através deles, lança o libelo de um novo olhar sobre o louco, para além das formas normatizadas que condicionam o homem em sociedade a cumprir destinos, metas, como quem cumpre as horas. Anarquizar o tempo, confiando em acasos não marcados, fora do círculo do ''compromisso'', é uma forma de também lançar-se à liberdade, este terreno fecundo e arriscado de areia movediça que, no entanto, está diretamente ligado ao prazer de sentir-se mutante e transformador.
Nadja enlouquece, desaparece, um dia não é mais vista. A narrativa acaba com uma notícia de jornal, um desastre aéreo, como se o desaparecimento de Nadja significasse também o fim daquilo que ansiamos e não atingimos, o que não deixa de ser existencialmente, um trágico acidente.
O livro de Breton que tenho aqui, com tradução de Ivo Barroso, em edição da Cosac Naify, de 2007, ainda instiga bastante, 74 anos após seu lançamento. Ele exige mais que uma leitura atenta pelas proposições que desencadeia, enquanto linguagem e exercício de liberdade. Por isso, acho que o terminei, mas não cheguei ao fim. O que mais instiga é seu permanente mistério que nos exige, mais que a leitura, o embarque num trem que vem do passado e continua nos levando ao futuro, embalado por uma engrenagem literária surpreendente, um golpe surrealista em nossa lógica de leitores.
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