Existem amigos com quem dialogamos a vida inteira, mas sem palavras, vírgulas ou interrogações. Alguns desses amigos nos abanam o rabo de maneira alegre e quase indecente, pulam em nosso peito com duas patas, nos fazem incômodas serenatas de latidos. Quando um desses amigos vai embora é como se parte da nossa vida migrasse para um território desconhecido e o quintal ganhasse o contorno de um vazio.
Perdi um amigo assim essa semana. Sherlock era um cachorro ''de grife'' que viveu sem frescuras, um ''airedale terrier'' com nome de detetive. Nós éramos a sua família desde que chegou há doze anos para fazer companhia a meus filhos que tinham acabado de nascer, tornando-se um bicho de estimação.
Sherlock viveu como um cachorro humilde, sem tratos especiais nem coleiras de falso brilhante. Criado no quintal, sempre teve ração, água fresquinha, sol e sombra para descansar. Por ter a mesma idade dos meus filhos gêmeos, não recebeu regalias, a prioridade sempre foi dos meninos, mas teve uma vida relativamente alegre, apesar dos olhos tristes que enxergo em todos os cães. Para mim, eles sofrem da melancolia de terem perdido o elo com sua vida selvagem. Acho que sentem falta da liberdade substituída à revelia por casinhas, passeios com guias, banhos e tosas, trocando as matas pela civilização. Acredito que às vezes uivam de saudades, como se ansiassem pela memória do que foram.
Aqui em casa Sherlock fez muita estripulia e, de vez em quando, eu desabafava: ''Este cachorro é o cão''. Entre suas artes estava o ''assalto'' à comida dos gatos, disputando a ração em lata e a tigela de leite com a gula de quem chegava a uma lanchonete.
A disputa na cozinha às vezes cedia espaço a uma intimidade prazerosa. Num canto, cão e gato acompanhavam nossas refeições, intrigados com o fio de mussarela esticado da pizza à boca como a corda de um varal, só que muito mais saboroso. Nessas horas tornavam-se cúmplices, esperando um pedaço de marguerita com o qual os brindávamos, esquecendo as recomendações de ''não dar massa aos animais para evitar que seus pelos caiam''. Com um pelo a mais ou a menos, Sherlock foi um bom gourmet que comeu pão e pizza, sempre atento ao que estava nos pratos.
Como um detetive, investigava o quintal para perseguir as sombras das roupas nos varais quando ainda era um filhote. Perdi vestidos estraçalhados pelo meu cão que também se divertia quando cismava com um camundongo na lavandeira, derrubando pregadores e caixas de sabão, bacias e jornais velhos para dar conta de sua caçada implacável. Seu triunfo consistia em acuar os pequenos inimigos para que os pegássemos. Nessas horas, ainda que nunca tenha usado lupas ou fumado cachimbo, Sherlock era astuto como o personagem inglês que lhe deu o nome e dele guardo lembranças que renderiam novelas de suspense ou humor.
Despedi-me do meu amigo na última quarta-feira. Não queria mais ver um detetive imobilizado pela doença, um guerreiro a quem o tempo roubou o movimento das patas. O orgulho de um cão é ficar em pé, latir para a lua, praticar ''assaltos'' em busca de boa comida, caçar camundongos, implicar com a sombra das nossas meias e vestidos, lutar com inimigos reais ou imaginários. Antes que a dor lhe roubasse as forças, deixei que fosse embora e o quintal ficou vazio, perdi para sempre os seus latidos. Mas sua história vive nos espaços que dedicamos aos melhores amigos, mesmo quando eles não podem mais responder, pulando em nosso peito com a euforia típica e sem palavras de quem trava um diálogo pelo coração. Ele deixa como herança uma bola velha, uma vasilha, uma coleira roída e todas as alegrias que um cão devota ao dono.

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