Folha 2 Atualizado em 10/01/2016, 00:01
CÉLIA MUSILLI
No início do ano é costume refazer as metas: pintar a casa, mudar de endereço, fazer dieta, ganhar mais para investir na poupança ou em títulos do Tesouro Nacional que é por onde o governo se safa das pedaladas fiscais, só pode ser bom negócio.
Todas essas metas me parecem linhas retas, precisamos de uma margem de segurança que nos permita planejar a vida, mas no fundo acho que a vida tem graça quando apresenta curvas: o dinheiro inesperado, a mudança inusitada, os quilos a menos sem esforço demasiado. De surpresas é feito o prazer, mas a maioria troca prazer por segurança, confundindo as duas coisas. Há pessoas que lidam muito mal com o imprevisto, ainda que seja uma coisa pequena, como mudar o caminho para ir ao trabalho porque a rua habitual encontra-se impedida. Este tipo de gente mora longe da aventura e perde a melhor parte da vida, repetindo o cotidiano.
Há uma personagem catatônica de Maura Lopes Cançado, no conto "O Quadrado de Joana", que teme perder a razão, embarcando com emoção demasiada "na curva de uma pétala". Isso no hospício é grave, significa perder o controle, por isso Joana só anda no pátio do hospício em linha reta. Mas a vida é mais feliz sem controles, com menos hospícios, e penso que disso depende parte da criatividade para começar o ano. Então, trago como patuá um verso de Manoel de Barros: "A expressão reta não sonha". Ou, em outras palavras, "não use o traço acostumado", ouse.
Esses versos de Manoel de Barros estão no "Livro Sobre o Nada", são parte de sua conversa com um pintor boliviano que tem pendores de Picasso. Este pintor, chamado Rômulo Quiroga, fazia uma arte primitiva, segundo o poeta, e ousava em cores e formas para além daquilo que é conhecido. Nada como um artista falando de outro artista, dá gosto ler Manoel de Barros quando ele propõe que a arte e a literatura são modos de "transver o mundo". Pois o pintor boliviano trasvia tudo. Numa de suas pinturas, que ele fazia em sacos de amiagem usados como tela, ele pintou um ancião com o rosto verde. Surpreso, Manoel de Barros pergunta a ele como o rosto poderia ser verde, já que essa cor representa a esperança, que é o oposto da velhice. E Quiroga responde: "Minha cor é psíquica", ou seja, ele pintava conforme sentia ou traduzia a emoção captada no mundo.
Acho de uma beleza inusitada alguém falar em "cor psíquica", é um modo de ressignificar as coisas, dando-lhes sentidos sobre os quais não havíamos pensado antes, isso é arte, isso é poesia, isso é um "pensamento curvo." A história das curvas também encontra-se no entendimento de gente dedicada a profissões "concretas". Olhem que beleza é essa fala de Oscar Niemeyer: "Não é o ângulo reto que me atrai, nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein".
Adapto esse conhecimento de Niemeyer à minha ideia de preferir a vida com curvas, com ângulos inesperados, em vez de traçar metas retas que podem até rimar mas não criam poemas. Assim, embarco em 2016 fazendo coisas inesperadas, propondo-me a projetos aparentemente sem chances, mas que ali, na curva desse rio chamado vida, podem encontrar correnteza propícia. As curvas estão em todo o universo que tem formas esféricas. Notem, não existem quadrados perfeitos na natureza, o quadrado é uma criação lógica do homem. Talvez com a idade em vez de juízo eu esteja ampliando a loucura, sempre soube que na segunda metade da vida eu seria mais despojada graças à experiência de saber que a gente não tem o controle da existência. É ela que nos carrega e, se em vez de resistências retas aceitarmos as curvas, nossa criatividade dará um salto. Pode não trazer dinheiro, nem segurança, mas decerto traz a felicidade de viver como quem se aventura.






