CÉLIA MUSILLI
No embalo de retrocessos ou avanços femininos, há algumas semanas a hashtag #meuprimeiroassedio levou milhares de brasileiras a denunciarem nas redes sociais o machismo que cerca relações nas quais mulheres são vítimas de violência e cantadas grosseiras que, infelizmente, fazem parte da cultura. A violência contra a mulher, celebrada em versos como "só um tapinha não dói" ou "elas gostam de apanhar", tem estimulado o resultado nefasto de cerca de 50 mil estupros por ano no Brasil, enquanto boa parte da população ainda culpa as mulheres por serem violentadas porque usam decotes ou saias curtas. No fundo, peito masculino pode ser visto, o feminino continua cercado de tabus até mesmo na hora da amamentação. Hoje, com mulheres sendo julgadas porque amamentam em público, penso que nem no tempo das minhas avós o mundo engatou uma marcha à ré tão evidente.
Se a hashtag #meuprimeiroassedio mereceu apoios por denunciar até situações de violência extrema, a hashtag que circula agora com o mesmo objetivo de promover em massa a cumplicidade feminina - #meuamigosecreto é válida como um "despertador coletivo" das mulheres para algumas situações consideradas comuns: cantadas baratas e públicas; discriminação de toda ordem; rótulos que ferem, enfim, a falta de ética geral que confronta o mundo masculino e o feminino. Porém, ao rolar na minha timeline o rosário da indignação feminina, senti vontade de sinalizar que não podemos nos transformar numa corrente de queixosas que têm coragem no mundo virtual e pouca atitude na vida. O fato é que ninguém é obrigada a conviver com um "amigo secreto" na verdade, metáfora para inimigos de plantão podendo tomar atitudes para enfrentar o namorado ou marido que não te respeita, o amigo que ofende, o interlocutor que posta bobagens no seu inbox, o grupo masculino que não leva sua opinião a sério, o chefe que assedia.
Muitos homens parecem ignorar ou reduzir nossa autoestima ao máximo, é fato. Num grupo de discussão política que frequento percebo que as mulheres pouco publicam, se contentam em curtir posts dos homens, atuando pelas beiradas. Algumas chegam a verbalizar que têm "medo de participar de um grupo tão intelectualizado" e compreendo sua timidez. Mas, acostumada a escrever cotidianamente, quando estreei no grupo agi normalmente, escrevendo, mesmo percebendo que os homens comentam muito mais seus posts mutuamente e celebram sua inteligência belicosa, às vezes pouco voltada a mensagens mais sutis ou não tão "articuladas", segundo um ponto de vista masculino. Mas é justamente aí que está a oportunidade de ATITUDE, de sair do encolhimento para subir no salto, mostrando segurança acerca das próprias opiniões, revidando à altura, correndo os riscos a que qualquer pessoa homem ou mulher se expõe quando resolve opinar.
Não fiquem esperando a aprovação masculina, aprovem-se por antecipação. Não queiram merecer atenção apenas de forma banal, imponham-se para além de um biquinho bonito ou de um charme calculado para atingir os homens pela sedução. Aventurem-se em instigar, espantar, soar diferente do diapasão dos que não estão acostumados ao nosso canto quando ele vibra acima da média. E, sobretudo, não cultivem "amigos secretos" que não alimentam, mas sugam sua energia criativa a ponto de usarem um texto seu para divulgar uma ideia que não lhes pertence, eu já passei por isso e registrei o plágio. O caminho é não se deixar seduzir pelo "amigo secreto" para depois reclamar dele. Não peçam licença, meninas, ocupem seus lugares e, acima de tudo, não durmam com o inimigo para depois propagarem que ele não presta. Inteligência é também previsão.






