Folha 2 Atualizado em 11/01/2015, 00:01
CÉLIA MUSILLI
A intolerância passa por várias instâncias, até mesmo pelo "politicamente correto" que levanta o dedo em riste para qualquer coisa que considere provocação para discipliná-la. O politicamente correto - que coloca camisas de força na livre expressão - é uma forma de censura aplicada também a manifestações criativas como textos e imagens. Se a vigilância constante às mensagens prevalece, toda sátira pode ser condenada e banida. Infelizmente, o dedo em riste às vezes passa a ser arma apontada para provocar a morte como aconteceu esta semana com os jornalistas e chargistas da revista Charlie Hebdo, em Paris, vítimas do terrorismo que não admite o humor e considera natural combatê-lo com a violência.
O episódio serve de alerta à tendência crescente de disciplinar os pensamentos por facções muito rígidas e sem permeabilidade. Ainda que sejam importantes, algumas lutas em bloco criam obstáculos arriscados a manifestações diferentes, ao pensamento livre, à reflexão pelo prazer, cerrando fileiras em torno do que é "bom e justo" para determinado grupo, podendo incorrer no erro desastroso dos fundamentalismos de qualquer natureza, incluindo os daqueles que lutam pelas causas justas mas causam cisões insustentáveis até mesmo no cotidiano.
O politicamente correto hoje impera na linguagem porque sabe-se que ela molda pensamentos ou é moldada por eles. Então, cuidados para falar, escrever ou desenhar sobre racismo, homossexualidade, feminismo, machismo, política e religião fazem parte da prudência a cada vez que decidimos discorrer sobre um tema polêmico, como faço hoje.
No meio de tantas exigências, o escriba pisa em ovos sem saber se será bem recebido o elogio à feminilidade da amiga outro dia me flagrei nisso, era um elogio ou se é melhor enaltecer sua opção feminista, sua força de combate, em detrimento de sua delicadeza física. Não sei mais se chamar alguém de "neguinha" pode escorregar do patamar carinhoso - onde eu mesma me encaixava na infância - para a ofensa grave. Na dúvida, chamo Maria de Maria, Rita de Rita, ainda que "neguinha" seja um dos apelidos que mais gosto porque enfatiza a morenice. Da mesma forma, não sei mais se devo me referir à orientação ou à opção sexual de um amigo. Um leque de expressões abre-se e fecha-se da noite para o dia e o que é correto hoje, pode ser falta de informação ou até mesmo ofensa amanhã. A liberdade de expressão ganhou uma camisa de força e, para começar, adestraram a língua. Na contrapartida, informam que o preconceito continua firme e forte apesar do malabarismo vocabular. Não sei mais se fico de boca fechada ou se reinvento o dicionário para atender às demandas. O mundo está todo dividido em prós e contras. Com sorte, as divergências pousam com tranquilidade nos campos de futebol, quando as torcidas iradas não quebram o pau porque alguém deflagrou uma bandeira verde do lado onde só se admite a vermelha. Hoje é tudo preto no branco, variações são impraticáveis e podem acabar em morte.
Esta semana, a religião determinou uma tragédia ao catalisar a raiva que repousa no politicamente correto levado ao extremo. Um grupo de chargistas franceses que satirizava de Maomé a Jesus Cristo foi silenciado à bala, vítimas do princípio que considera a livre expressão um abuso, a sátira uma ofensa e rir um pecado. No livro O Nome da Rosa, de Umberto Eco, uma série de assassinatos ocorre numa biblioteca cristã da Idade Média, um dos motivos é a ocultação de um livro que provocava o riso. Mas se rir não agradasse a Deus, acredito que ele não o teria inventado.
Sob a ótica da censura ao riso, os chargistas franceses também perderam a vida ao usarem o talento para criar narrativas satíricas sobre as religiões encaixadas em culturas diferentes, conforme concepções que colocam sobre a cabeça de cada profeta a coroa da "verdade", regida por conceitos que mudam de país para país, de povo para povo. Creio que seu objetivo fosse, mais do que tudo, fazer pensar. Mas, neste caso, o politicamente correto não admite o riso e como filhote da censura que, por sua vez, é filha do autoritarismo, entrou em ação para acabar com a brincadeira e mostrar que o terror não tolera o humor, mas considera salutar a violência, vista como um agrado à Deus e um ponto de honra.
Mais uma vez o riso - que é a crítica dos puros e dos tolos desde os bufões - cedeu à dor e ao luto. Não foi a primeira vez na história, nem será a última, mas esta semana em Paris foi triste perceber que mataram a irreverência e o mundo não amanheceu melhor por isso. No fundo, acho que até Deus chorou.
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