Um limão nu na Idade Mídia

Publiquei em rede social a foto de um limão aberto tocado por um dedo entre os gomos, a conotação sexual incomodou, os adeptos da "delação" - com vistas à moral e aos bons costumes - que se preocupam com aquilo que mal compreendem, entraram em ação. A rede social acatou a denúncia e me enviou aviso: "Estamos analisando sua postagem", aventam a possibilidade de removê-la ou me dão a chance de eu mesma fazê-lo para não correr riscos. Na verdade, minha provocação põe em xeque um conceito, fazendo um jogo para demonstrar que "nem todo nu é erótico e nem todo erotismo é nu".
A experiência do "limão nu" mostra que em nosso olhar saturado, a sensualidade está vinculada a imagens do corpo humano mostrado às vezes de forma fracionada, como uma feijoada composta apenas por peitos e bumbuns, preferencialmente femininos. Nisso se resume a vivência erótica em massa na vida contemporânea. Mas o erotismo é mais, é o espaço onde vislumbramos ou construímos a fantasia, potência da imaginação que amplia nossa capacidade de viver e transar, ultrapassando a padronização dos sentidos ou seu enquadramento.
Cada um enxerga o que quer num limão nu, da perversão da fruta à poesia de sua "carne", estabelecendo um leque de opções eróticas ou de censura. A imagem é apenas simbólica, censurar um limão com uma pequena abertura onde se põe o dedo é ridículo. Mas ele serviu como "corpo" numa provocação implícita para mostrar que a censura da nudez não basta para castrar um grupo humano que troca também experiências eróticas – além de outras - como tudo que é vivo e respira. Proibir o nu, impondo corpos e até limões vestidos, é nos condenar a um sistema, representado pela autoridade de alguns sobre a escolha de outros. Abaixo o Pai castrador, como nos ensinou Freud. Abaixo a rede que sequestra nosso desejo que, invariavelmente, escapa pelas frestas. O Facebook, por exemplo, está cheio de páginas secretas onde se pratica de tudo, mas na timeline proíbem até mesmo o nu artístico num exercício de retrocesso que censura até mesmo a Vênus de Botticelli. E olhem que Botticelli é de 1400, sob alguns aspectos permanecemos na Idade Mídia.
A natureza é um universo de erotismos: cílios, líquens, pelos, nervuras, buracos recônditos, filetes provocantes, cores excitantes, cheiros inebriantes, contato rígido, flácido, morno. Na natureza tudo se atrai e se cruza para perpetuar as espécies, nela tudo é vivo, nada é indecente.
Provocar nossa espécie com um limão nu é uma forma de refinar o olhar erótico, através de uma imagem simbólica que remete ao ácido, cheiroso, mole, aquoso. A brincadeira vale só por isso: nos induzir a ler e identificar símbolos ancorados em nossa imaginação, com uma potência que nos leva ao prazer pela evocação da "fruta do sexo", presente no "jardim das delícias" de onde tentam nos expulsar até hoje para os "jardins da culpa".
Essa ideia de culpa, presente na civilização como herança cultural e religiosa, nos acompanha desde a infância, nas experiências primárias com o próprio corpo. Mães ensinam os filhos a "não porem a mão aí", e o "aí" cresce cercado de mistérios e de pecado, sem que a criança possa entender por que pode tocar a perna, o nariz, mas não os próprios órgãos sexuais. Educar é uma coisa, reprimir é outra, a proibição dá margem a muita incompreensão na vida adulta, como a dessa gente que entra em crise quando vê um limão nu, devem sentir o mesmo ao descascarem uma banana. A conotação sexual sempre incomoda, mas nos leva também a uma reflexão sobre o corpo e o conceito de erotismo. Quer dizer que publicar a imagem da Mulher Melancia pode mas um limão nu não pode? Por aí se vê que o plano de castração é falido em si mesmo. Nos acostumamos a imagens eróticas massificadas, bumbuns rebolantes, corpos femininos vendidos como mercadorias, mas mostrar a sensualidade de uma fruta causa incômodo.
Botar o dedo no limão nu ou no pistilo de um copo-de-leite é acordar para o erotismo num território que vai além da massificação dos corpos, em busca de uma sensibilidade perdida. O erotismo é invenção humana, faz bem degustá-lo com a ampliação do olhar. No erotismo nos movemos muitas vezes por um universo simbólico, numa combinação de fetiches que nos diferencia das outras espécies. Então, sejamos humanos para revirar, experimentar, provocar e reinventar as pétalas com imaginação e prazer, da primeira até a última semente. Quem não aguentar, feche os olhos, mas só os próprios olhos, sem querer comandar o olhar dos outros. Da minha parte, acho as experiências visuais sempre divertidas e o limão nu continua em meu mural.

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