CÉLIA MUSILLI
Neste espaço, teoricamente devo falar de arte e cultura, tenho também licença poética, mas posso enveredar pela análise da mídia. Por que não? Tenho reparado na rede de intrigas desta eleição. Um jornalista atento levaria meses desmanchando mal entendidos e, sobretudo, mal feitos. Algo assim como desmontar armadilhas incansavelmente repetidas como "verdades". Portais fabricam "notícias" com a cor e o tom agressivo de seus partidos. É a tática da desconstrução. Não resiste a números, contas, checagem de fontes. Uma maquiagem grossa que derreteria com um bom esfregão. Então, vou me dedicar um bocadinho a desmanchar mandingas e mal feitos. Na verdade, o assunto daria um livro, se pegássemos a partir da mídia oficial, com as indefectíveis revistas semanais que têm não só público como alvos dirigidos.
Mas hoje passo mais tempo na internet, no embate da mídia informal que traz a vantagem da democratização do espaço e também do limbo facilitador das mentiras. A palavra impressa ou digitada detém uma aura de "verdade" difícil de desmistificar por uma razão simples: poucos leitores têm o cuidado de checar fontes, observar se uma coisa é notícia ou mera propaganda facciosa. Num país de analfabetismo funcional alto, a leitura analítica está longe de ser uma conquista. O fato é que mal escrevemos e mal lemos. A ideia deste artigo surgiu depois de desmontar alguns posts na rede social, o que não é nada. Um especialista em arapucas, se fosse a campo, teria meses a fio só desmanchando mal feitos, como um desses desmontadores de armadilhas para passarinhos.
Uma versão insistentemente postada: o pai de Marina Silva, Seu Pedro, viveria abandonado na Cidade Nova, bairro de Rio Branco, no Acre. A nota contém verdades, o nome, o bairro, a cidade. E uma mentira: Seu Pedro não vive "abandonado". Entrevista com a irmã da candidata, feita pelo Terra Magazine, desmascarou a informação capciosamente postada na rede. Nela, verifica-se facilmente o apelo emocional que deu margem à inverdade: o pai velho, abandonado pela filha que tem poder, dinheiro e não faz nada pela família. Na entrevista ao Terra, com Seu Pedro deitado em outro tipo de rede, a irmã de Marina Silva, Maria Lúcia, desmente a tese de "abandono" e explica as relações familiares: "Nesses anos todos, todas as vezes que ela (Marina) vem a Rio Branco a gente se reúne na casa de meu pai ou na casa da Deuzimar, a nossa irmã mais velha, ou vamos pra casa dela. Mas contato com Marina nunca faltou. A gente telefona para ela, se a gente demora a ligar ela se encarrega de telefonar pra gente. A distância nunca fez a gente perder o contato." Em entrevista ao Estadão, outra irmã, Maria Elizete, explica que o pai "nunca quis arredar pé do alagado." Fiquei pensando na minha avó que insistia em morar na sua casa de madeira, numa pequena cidade, em idade avançada. E pergunto por que as pessoas acreditam que todo pai, mãe a avó deseja morar, por exemplo, numa apartamento na cidade grande? Isso dá margem a teses de abandono que se mostram frágeis à primeira revisão dos fatos, mas até lá, incautos já engoliram a falsidade, a maquiagem, o apelo emocional que cairia melhor numa novela mexicana.
Não só nas redes sociais encontram-se mentiras frágeis. As revistas semanais são pegas permanentemente no flagra, muitas vezes apontando armas para o partido da situação que se tornou presa fácil depois das contradições que permeiam sua história recente. Mas nem tudo é verdade, embora a mentira atravesse fronteiras, não seja caso isolado e nas repúblicas de cucarachas ganhe tons lavados que não coram nem mesmo com a incidência do sol dos trópicos. A imprensa venezuelana, esta semana, em apoio à candidatura de Dilma, publicou que Marina Silva tem apoio de Collor e Sarney, aliados do PT nesta eleição. Um tiro feio que aqui sai pela culatra, mas lá fica navegando no mar de petróleo que encobre "verdades", tendências e facções que revelam uma das campanhas mais antiéticas de que se tem notícia. Tenho aqui cerca de quarenta linhas semanais, mas o assunto daria um livro com todos os partidos pisando na bola que separa versão de fato. Convoco leitores pacientes a desmancharem armadilhas. Uma campanha eleitoral deveria se ocupar da construção de propostas, não da desconstrução de imagens. Haja sal grosso para combater as mandingas e os mal feitos. No lugar de marqueteiros chinfrins deveríamos ter um batalhão de "médiuns".
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