CÉLIA MUSILLI
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de abril de 2013
O tempo
Abra o livro, conte a si mesma a história bordada a ouro. O corpo de carne, o espírito do avesso, o desejo sempre duvidoso de continuar ou parar para brincar de bonecas, recuando no tempo entre fantasmagorias constituídas como lembranças.
Abra o livro, conte a si mesma a história bordada a ouro e salpicada de cinzas. O choro convulsivo da avó que perdeu os filhos logo ela que tanto queria partir primeiro, sorrateira como aquelas que não querem carregar as mágoas, só as coisas leves, os fios de seda, a luz das janelas em número ímpar do casarão de madeira, onde netos se debruçavam como se viajassem de trem.
Abra o livro, conte a si mesma a história bordada a ouro das suas pequenas vitórias. Os cadernos comprimidos contra o peito, o lápis gasto e um extenso mata-borrão absorvendo as aulas de geografia. Vales, rios e montanhas, pontos cardeais nunca esclarecidos, a Terra de ponta-cabeça na mente que não retém nada por obrigação, mas sonha poemas entre paisagens e acredita que o planeta tem mais belezas do que ameaças.
Abra o livro, conte a si mesma a história bordada a ouro dos amores perfilados, um mosaico de rostos queridos e mãos que fecharam portas, deixando no ar o perfume dos jardins batidos pelo vento que sempre carrega pétalas desprendidas. Bem-me-quer! Mal-me-quer! Depois recolha tudo e guarde na caixa dos objetos perdidos.
Abra o livro, conte a si mesma a história bordada a ouro do que ainda não aconteceu. Um futuro de nuvens plúmbeas e chuvas de granizo, na hora em que esticamos as mãos para recolher pedrinhas e derretê-las sob a língua fazendo profecias, falando de dias melhores, de um sol redondo emoldurando as coisas até estilhar-se na última luz implacável marcando o tempo, o tempo, o tempo que parte como um trem de passageiros, carregando avós e toda sua descendência.
Pontos cardeais
Ao sul do corpo, os pés com as meias da infância onde perderam-se os sapatos, apesar de abotoados para a festa de muitos anos.
Ao norte, o corpo é cabeça. Totem acima do Equador onde se levantam planos, territórios perdidos, mapas confiscados, todos os meridianos do planeta, nervos de pétalas e de aço, neurônios sem sinapse, ideias que giram como o globo da morte, tendência suicida, voo de ferro recoberto de plumas, cabeleira de astros, faróis de olhos castanhos, boca de pitonisa, ouvidos de lince, faro de puma, todos os bichos juntos num zoo que me redime por pouco da selvageria.
A leste, o braço onde se prende a mão do aceno, levando junto o coração. Bomba, hóstia sagrada, chaga de Cristo, flecha de São Sebastião na árvore solitária, quadro obsceno, rito onde se inscreve Amor, Luz e Compaixão.
A oeste, o ocaso do corpo, o dedo que ostenta alianças, os poros esquecidos, as unhas longas da feminilidade para acariciar os gatos, o imaginário de Alice em mundos subterrâneos de sonhos não consumados ou vividos pela metade. Ali, a bênção de um deus comum me transplanta um coração sem aliados, que bate surdo. Ponto cardeal do amor ausente como o sorriso que se pendura na boca. Bandeira, oráculo das despedidas.



