"Já que sou, o jeito é ser." A frase de Macabéa, personagem de Clarice Lispector em "A Hora da Estrela" expressa profundo conformismo com sua condição de ser no mundo. Há nela uma reflexão existencialista, mas um existencialismo revestido da humildade da personagem que Clarice criou rompendo o hermetismo de seus romances anteriores e assumindo um discurso regionalista incomum em sua obra.
Macabéa é nordestina, mais uma que troca o sertão por uma metrópole do Sudeste, desembarca na cidade grande com toda apreensão e humildade em busca da realização de pequenos sonhos, tão pequenos quanto ela mesma se enxerga. Seus luxos são comer goiabada com queijo e ir ao cinema uma vez por mês. Tem um namorado também nordestino chamado Olímpico de Jesus, combinação significativa do Olimpo – que Macabéa não consegue alcançar na relação, já que o namorado a troca por uma colega, Glória – e do nome do próprio filho de Deus. É nome nordestino como o de Macabéa, nascida na região onde não faltam nomes incomuns, criados a partir de partir de sufixos e prefixos, pedaços de outros nomes que vão se juntando, como Liodoro, Dionilson, Irislene.
No romance, que é o último de sua vida, Clarice assume o discurso regionalista. Anteriormente ela havia sido criticada por não adotar o regionalismo que emergiu com o Modernismo, embora ela mesma tenha vivido no Nordeste, mais precisamente em Recife, de onde foi para o Rio. A autora conhecia bem os caminhos das Macabéas e Olimpos. Mais que isso, ela se sensibilizava com a condição dos excluídos. Um dos seus contos mais expressivos é "Minerinho", publicado na revista Senhor em 1962, no qual ela revela o desconforto que lhe causou a morte de um bandido pela polícia com 13 tiros. Numa entrevista à TV Cultura, pouco antes de sua morte, Clarice fala de Mineirinho, inconformada com o fato dele ter morrido com tantos tiros, um após o outro, quando na verdade já devia estar morto desde o primeiro ou segundo. O que lhe angustia é pensar que a polícia precisou descarregar as armas, num acerto de contas desnecessário e que só se justifica pela raiva e a violência dos extermínios.
Interessante como Clarice se posiciona politicamente tanto neste conto quanto em Macabéa, mas o faz de uma forma absolutamente literária, sem panfletismo. O livro Macabéa é revestido da eficácia estética que embala toda sua obra, com espaços poéticos e espaços que nos deixam em suspensão, pensando no significado profundo de tudo o que ele a escreve. É um romance que pontua também a atividade do escritor, porque o narrador da história de Macabéa é um escritor, Rodrigo, e Clarice joga com isso num exercício de metalinguagem. Rodrigo reflete sobre sua escrita. Clarice reflete-se nele.
"A Hora da Estrela" é um título instigante, porque a hora da estrela é a hora da morte da anti-heroína Macabéa, que só depois de atropelada se torna "visível" aos olhos dos transeuntes. Ela morre logo depois de sair de uma sessão com uma cartomante que lhe faz previsões otimistas, diz que ela iria se casar com um homem loiro e rico. Ao sair da casa de Madame Carlota, que lhe faz previsões tão felizes, Macabéa é atropelada por uma Mercedez conduzida por um motorista loiro e assim, se torna a "estrela" na cena de sua própria morte.
O último romance de Clarice Lispector foi publicado em outubro de 1977, ela mesma viria a morrer em dezembro do mesmo ano. Coincidência? Ou a previsão que ela faz sobre si mesma, sem a ajuda de videntes?
Clarice viveu envolta em seu brilho de grande autora, estrela visível que se escondia por vontade própria, levando vida intimista tão bem refletida em sua obra. Ela também morreu deixando seu último livro envolto pelo mistério. Segundo ela, "A Hora da Estrela" é um livro que teve treze nomes, treze títulos que nunca revelou, até chegar à conclusão de como se chamaria. Treze, como se sabe, é o arcano da morte na tradição cabalística. Pelo visto, Clarice sabia que sua hora havia chegado e deixou pistas da sua intuição ao escrever o último romance antes de se tornar também estrela.

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