Anotações sobre Clarice
Acaba de ser lançado mais um livro sobre Clarice Lispector, enfocando seus textos jornalísticos, crônicas, colunas dedicadas ao público feminino. Trata-se de "Clarice na cabeceira – Jornalismo", de Aparecida Maria Nunes, publicado pela Rocco. Em 10 de dezembro, dia em que a autora faria 92 anos, outro livro chega às prateleiras: "No limiar do silêncio e da letra, traços de autoria em Clarice Lispector", escrito pela psicanalista Maria Lúcia Homem. Fiquei pensando por que os livros sobre Clarice têm títulos compridos, sempre referindo-se à sua obra e, indefectivelmente, juntando-se ao seu nome. Deve ser difícil falar dela em poucas palavras e sem evocar o... mito. Clarice, a mulher "com a flor no peito" (lis pector), a que tinha "olhos de piscina", segundo alusão do poeta Mário Quintana, bem aproveitada por Rubem Braga numa crônica.
Li a maior parte de seus livros, assim como obras sobre sua vida e literatura: "Clarice, uma vida que se conta", de Nádia Gotlib (Ática, 1995), "Clarice, uma biografia", escrita por Benjamin Moser, com excelente tradução de Jose Geraldo Couto, e os Cadernos de Literatura Brasileira 17/18 (Instituto Moreira Salles) que trazem, entre outras coisas, depoimentos de jornalistas e escritores que trabalharam com ela no JB, como Alberto Dines e Ferreira Gullar. Quando fui escolher tema de dissertação de Mestrado, não escolhi Clarice, apesar de alguma intimidade com sua obra. Escolhi uma autora relativamente desconhecida, Maura Lopes Cançado que, soube depois, Clarice admirava como contista, tendo sido sua contemporânea na redação do Jornal do Brasil, nos anos 60. Maura, exímia contista de fato.
Pelo livro de Aparecida Maria Nunes, fico sabendo como Clarice se comportava como jornalista, como se esforçava, em certa medida, para aprender as técnicas dos textos para a imprensa. Dona de estilo literário tão próprio, nos jornais não podia incursionar pela metafísica ou, em linguagem simples, não podia "viajar" pelo pensamento com irrestrita liberdade. Também não podia ser existencialista na imprensa, território de objetividades por excelência.
Apesar disso, Clarice tinha um modo peculiar de entrevistar pessoas, como fez com o cronista Carlinhos de Oliveira, a quem encontrou no restaurante Antonio’s, no Rio, trocando com ele bilhetes. Ficaram ali mudos, enquanto se desenrolava a "entrevista" e imagino a atmosfera de cumplicidade que resultou, dizem, numa ótima conversa. Lembrei-me também de um relato sobre seu encontro com a poeta Hilda Hilst, em que ficaram completamente silenciosas durante mais de uma hora, fumando, olhando uma para a outra. Duas autoras esplêndidas, duas fumantes esplêndidas, duas mulheres sagradas. Continuo atenta às coisas que escrevem sobre elas. Mulheres-esfinge que a gente olha por vários ângulos, vários gêneros: romance, poesia, texto jornalístico e um dia descobre, pela profusão de títulos que não param de ser publicados, que ainda há muito a ser dito. Coisas que os pesquisadores investigam de frente, de costas, de lado. Fotografias multifocais, enquanto as esfinges ainda deixam perguntas sem resposta para a eternidade.

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