Eis o mistério da fé
No momento em que todo mundo fala do novo filme de Woody Allen, ''Meia Noite em Paris'', quero falar de ''Homens e Deuses'', de Xavier Beauvois. Não sou uma pessoa religiosa, mas saí do cinema tocada por este manifesto de fé e tolerância em tempos cada vez mais intolerantes, quando o mundo segue a velha cartilha das tensões políticas, das ideologias irreconciliáveis, da religião como um apartheid. O filme estreou no circuito nacional em abril, mas segue em cartaz em alguns cinemas, com salas lotadas. Isso deve acontecer por uma razão muito simples: ele aborda com delicadeza uma temática humana e espitirual ao mesmo tempo.
Esta espiritualidade se expressa como uma questão de interioridade e integridade pungentes, a partir da ação de monges católicos que trabalham pela comunidade na Argélia sem cobrar dízimos, sem idolatrar Jesus, sem se comportar como vendilhões do templo. Trata-se de um cristianismo profundo e sereno, cada vez mais escasso nas manifestações religiosas que abusam da fé com fórmulas bregas do showbizz. Fórmulas presentes nos espetáculos de algumas correntes evangélicas e católicas, dos padres e pastores que fazem shows de fé e gravam CDs que somos obrigados a ''degustar'' nas propagandas de televisão. Que Deus nos livre de sua arte. Melhor um inferninho autêntico do que um céu falsificado.
Mas tornemos ao filme, cujo enredo traz religiosos que trabalham pela população pobre, aquele trabalho social árduo que as igrejas deveriam fazer antes de encher a boca de orgulho para falar de Deus. No mosteiro, Deus está na oração e na ação, no plantio e na colheita, por isso os monges se colocam muito próximos da comunidade. Mas há conflitos políticos no país, que tem um governo corrupto e um exército com mão de ferro. Além disso, os fundamentalistas muçulmanos, em choque com o governo, formam a segunda facção disposta a perturbar a paz dos monges, de quem querem favores médicos e remédios, além de vislumbrar na ameaça ao mosteiro uma forma de guerrilha.
Os monges ficam entre a cruz e a espada. Diante da situação política insustentável, são orientados pelo exército a deixar o mosteiro. Eles ficam, continuam o trabalho com a população, com quem compartilham as festas e o medo, os cuidados médicos e a convivência na feira. Estão ali para um trabalho que atende o corpo e a alma, tratando das feridas físicas e emocionais.
Mas a pressão política aumenta, o caldeirão de conflitos cozinha em fogo alto, há previsão de sacrifício e morte anunciada. O que emociona é o modo resoluto com que vão de encontro à vida e à morte, com uma fé inabalável no que estão fazendo, dialogando cotidianamente com Deus de forma serena e sem necessidade de espetáculo porque não precisam de plateia, seus atos falam por eles, sua comunhão com Deus é clara, de um modo que dispensa testemunhos.
Belíssimas as cenas no interior do mosteiro, os cânticos ao amanhecer, as paisagens divinas em seu próprio esplendor, as refeições simples e cheias de gratidão pelo fato de estarem ali, juntos, numa missão que é a razão de sua existência, a razão de terem optado por uma vida espiritual. Sua espiritualidade é legítima e sem orgulho. Não há manipulação do povo, não há dízimos, não há retórica nem púlpito. Toda fé é vivida no cotidiano, em cada ato, em cada remédio ou conselho que se dá sem cobrança.
O desfecho é aquele que se anuncia desde o início. Oito homens que se entregam à fé até as últimas consequências, recusando a proteção do exército argelino para continuar ao lado do povo. Recusando a presença dos soldados no mosteiro até se tornarem, numa noite, presas fáceis dos fundamentalistas. A ''última ceia'', é uma das cenas mais sensíveis e belas. Eles compartilham o vinho, ouvem Tchaikovski com emoção de despedida, com os olhos e a alma abertos à beleza que é, naquele instante, um ato de comunhão com a existência. Se morrem é porque acreditam na vida, na fé que os levou à convivência com aquele povo sofrido com quem aprendem e ensinam valores sem preço. Das reflexões que pontuam o filme resta apreender o sentido daquilo que se chama ''mistério da fé.'' Um mistério que não tem nada a ver com a contaminação das igrejas que ostentam Deus em cultos exibidos.
O mais emocionante é saber que ''Homens e Deuses'' reproduz uma história real e não tem nada a ver com paraísos falsificados nem com templos vendidos.
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