Célia Musilli
Na manhã de quarta-feira, li que a iraniana Sakineh Mohammadi-Ashtiani, 43 anos, ainda estava viva, mas poderia ser executada a qualquer momento.
Mais de dois mil anos depois de Cristo ter livrado Maria Madalena da morte afirmando: ''Aquele que não tiver pecado que atire a primeira pedra'', ainda convivemos com o horror de uma mulher vir a perder a vida por suposto adultério.
Os movimentos que pedem às autoridades iranianas que livrem Sakineh da pena de morte por causa injusta, ambígua e inaceitável, talvez não tenham força suficiente para conseguir o ''perdão'' para uma pessoa que se tornou vítima de uma sociedade preconceituosa.
Mas nos equivocamos quando acreditamos que preconceito é atributo de um país distante e atrasado, sob o ponto de vista da religião, da moralidade e dos direitos. No mundo inteiro alguma forma de preconceito viceja, sob olhares complacentes, omissos ou mesmo solidários. Preconceitos contra mulheres, gays, negros e pobres são os mais gritantes. Me lembro da música de Caetano Veloso que denunciava:
Será que nunca faremos se não confirmar
A incompetência da América Católica
Que sempre precisará de ridículos tiranos?
Será será que será que será que será
Será que essa minha estúpida retórica
Terá que soar, terá que se ouvir
Por mais zil anos?
A julgar pelos sinais, Caetano, nem daqui a zil anos a situação será diferente. Bastou Dilma Rousseff vencer as eleições presidenciais para que camadas de grosso preconceito fossem revolvidas por cidadãos que declaram ódio aos nordestinos que votaram nela, olhando com desprezo aquele outro Brasil que consideram ignorante e sem direito à escolha.
Grande parte desta bestialidade é culpa da educação separatista e elitista que recebemos ou pela qual somos influenciados, quando passamos por escolas divididas em particulares ou públicas, quando andamos de carro ou de ônibus, quando vivemos em condomínios ou vilas, quando ansiamos por bolsas Louis Vuitton e não conseguimos compreender a necessidade da Bolsa-Família. Numa sociedade de classes, os considerados de ''segunda classe'' são sempre mal vistos porque o desprezo pelo pobre é grande, assim como é grande o desprezo pela mulher livre ou pelas pessoas que se relacionam com alguém do mesmo sexo. De alguma forma, sempre que alguém destoa do comportamento considerado ideal, outro alguém encarna o papel de ''lobo do homem'', influenciado por regras absurdas endossadas pela sociedade e pelas religiões.
Todas as culturas têm seus ''livros de ouro'' - do Alcorão à Bíblia - que endossam situações de preconceito que reforçam as atitudes desta gente que quer apedrejar a vontade e os direitos alheios. Não posso levar a sério um livro onde está escrito: ''Toda mulher que orar ou profetizar com a sua cabeça descoberta envergonha sua cabeça, pois é como se fosse (mulher) de cabeça rapada. Porque, se a mulher não se cobrir, seja também tosquiada; mas, se é ignomioso para a mulher ser tosquiada ou rapada, que se cubra.'' O que seria da Bíblia sem a humanidade de Cristo?
Não posso deixar de sentir vergonha por viver num país onde a xenofobia correu solta por conta da eleição de Dilma Rousseff, com pessoas no Twitter e outras redes sociais declarando ódio aos nordestinos com frases do tipo: ''Nordestino não é gente, faça um favor a SP, mate um nordestino afogado.'' A autora da frase hedionda foi Mayara Petruso que, pasmem, é estudante de Direito e não foi a única a querer ''apedrejar'' eleitores. Houve uma enxurrada de insultos. Coisa estarrecedora quando pensamos que nunca falaram em matar gaúchos porque Vargas era presidente ou mineiros quando JK estava no poder. O que deixa claro que os humildes são as maiores vítimas dos preconceitos.
Pela estreiteza da mediocridade, os diferentes e os vulneráveis não passam sem um olhar de ódio, sem apedrejamento, sem a discriminação que divide a humanidade em guetos. Sonhar com um mundo igualitário pode ser utópico, mas gritar contra o preconceito é o mínimo que posso fazer para me sentir humana.
Diante de tudo, acho que é mais útil pensar que descendemos dos macacos do que cultivar a idéia de que somos uma espécie superior que fala em Deus e age como predadora da própria raça, inspirada em falsa moral, classes e aparências tão velhas quanto o mundo. E venham me dizer que o Brasil é um país sem preconceito!
[email protected]
www.sensivelldesafio.zip.net





