Cidades são como os amores, longe nos sentimos mais perto

Volto a Londrina por uns dias. Na entrada da cidade, reconheço as avenidas que me dão a impressão de estar voltando para casa. É que algumas cidades são como as casas, delas guardamos a impressão deixada por seus quintais, as esquinas que dobramos com facilidade, as praças que nos trazem uma felicidade que não existe em nenhum lugar do mundo.
Não sentimos a mesma coisa quando moramos por muitos anos na mesma cidade ou na mesma casa. Habituados à sua vida, a seu cheiro e sua arquitetura perdemos a impressão de novidade ou do se deparar com lugares que se tornam mais importantes quando os perdemos de vista. Cidades são como os amores, longe nos sentimos mais perto, porque a saudade, esta senhora que visita nossa intimidade de modo sorrateiro, alimenta-se da distância.
Por isso digo, afastem-se de vez em quando das suas cidades, viajem. A viagem tem o dom de nos apresentar novos mundos, ao mesmo tempo em que nos mostra maneiras de apreciar os velhos conhecidos. Longe de Londrina, esqueci suas faces feias e pesadas. Guardei na lembrança os ipês que florescem em agosto e suas azaléias. Guardei a imagem do Calçadão ainda ''pintado'' com o desenho kaingang. Sinto prazer em voltar e perceber que algumas coisas permanecem quase inteiras, como os corações que se apaixonam, se quebram e se colam.
Londrina é assim, uma colagem que me faz sentir inteira. Um cartão-postal com sua catedral que mistura o fundo gótico com a fachada que se pretendia moderna. Londrina sempre se desfaz e refaz, sem nenhum estilo e única. De permanente, mantém as linhas do Museu Histórico, os arcos de Artigas que dão ao Museu de Arte uma das faces mais virtuosas da sua arquitetura, uma sinfonia de Mahler, porque o voo de Londrina se inscreve naqueles arcos, como asas suspensas em três tempos.
No centro, vejo aquilo que não me canso de olhar, como quem folheia um álbum num passeio rápido. Decerto quem vive aqui não tem tempo para estas memórias e só quem vive longe vê as mesmas ruas com surpresa renovada, os mesmos bares com a sede da euforia.
É, sei que canto Londrina como a moradora ausente. Também sei que para muita gente esta beleza não se enquadra no cotidiano.
Morando nas cidades, dimensionamos seus defeitos como se o nosso foco se ajustasse sempre sobre os problemas, os buracos, o trânsito. Longe, prevalece o que as cidades nos oferecem de beleza, porque o prazer é sempre mais forte que a frustração. Sob este ponto de vista, Londrina é o colo pra onde quero voltar ou a criança que, como o filho da gente, tem sempre qualidades que superam o defeito, a birra, os erros. Porque longe o amor cresce e aparece, nos ensinando a gostar das coisas também pelo avesso, apesar dos nós que enfeiam a paisagem.

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