A crueldade está em toda parte. A violência pode entrar em nossa casa, ser nossa vizinha, morar na mesma cidade. A dor está no cotidiano, parece que dói mais quando estampada no jornal, como na foto de Fábio Ciquini, publicada na capa da FOLHA, no dia 1º de maio. Nela está Roseli, que perdeu o filho Vinícius André Marques Pereira, de apenas 20 anos, brutalmente assassinado. Ela está ao celular e chora, chora demais, expressando o desespero de ver o filho morto. A foto emociona, choca, me lembra a angústia da tela de Munch, chamada ''O Grito'', mas não se trata de arte, é dor real. A foto sintetiza o momento máximo da angústia de Roseli, chorando a morte do filho assassinado no Jardim Shangri-lá, em Londrina.

Vejo o nome do rapaz, Vinícius André, e noto que a mãe caprichou na escolha. Nome duplo, sendo Vinícius um nome de poeta. Talvez Roseli não tenha pensado no poeta quando batizou o filho, mas decerto sonhou um futuro melhor para ele. Nenhuma mãe que não sonha, coloca no filho um nome destes: Vinícius André, que já não está neste mundo.

Ele foi assassinado às 13 horas, conforme a reportagem de Carolina Avansini. Imagino que sua mãe, como todas as mães, deve ter aconselhado muitas vezes: ''Meu filho, não chegue tarde em casa.'' Mas, de repente, sem avisar, a morte chegou à luz do dia, quando todas as ruas deveriam estar calmas, a violência deveria estar dormindo, de preferência para sempre, se quiséssemos sonhar com um mundo mais humano.

De humano sobra a dor nestes tempos convulsionados. Sobra também a sensibilidade de um leitor chamado Celso - só sei que seu nome é Celso - que ligou para a FOLHA, sugerindo que eu escrevesse uma crônica sobre a angústia da mãe que perdeu o filho.

Confesso que escrevo chorando, muitas vezes neste ofício de retratar as belezas e as mazelas do cotidiano, a gente chora. Olhei os arquivos do jornal e descobri mais histórias de dor.

Antes de Roseli, no dia 21 de abril, Ema Gonçalves também perdeu um filho assassinado. Luiz Carlos Gonçalves, 31 anos, morreu durante um assalto a sua sorveteria, no Jardim Castelo. Dito assim é só notícia de jornal. Mas o repórter Bruno Maffi foi mais fundo e deu outras pistas.

Quem conheceu Luiz Carlos diz que ele era trabalhador e gostava de ajudar as pessoas. De vez em quando, uns rapazes que jogavam bola perto de sua sorveteria passavam por lá na volta do jogo, pediam um sorvetinho, que ninguém negava. Um destes jovens foi identificado pela polícia como um dos prováveis autores do crime. A família de Luiz Carlos chamava este garoto de ''Robinho'' e dizia que ele um dia poderia ser famoso. Mas infelizmente, ele não vai ser um craque e Luiz Carlos não está mais aqui para lhe dar sorvete depois da partida. O desfecho desta história é outro, foi parar nos jornais por motivos tristes, por causa da violência e da dor que são parceiras do cotidiano.

Luiz Carlos fazia um diário, que foi encontrado por sua mãe. No dia 18 de abril, três dias antes de morrer, ele escreveu: ''Dia + ou -. Medo de assalto. Mas graças a Deus não aconteceu. Que Deus abençoe os bandidos.'' A última frase é um ato de fé, uma oração que transpira generosidade. Então, que Deus te abençoe Luiz Carlos, por ter escrito sua vida de forma mais humana, acreditando que todos os garotos poderiam ser Robinho. E a todas as mães que perderam seus filhos, só posso dizer: coragem!


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