CELIA MUSILLI
Não ia dizer nada sobre a estudante que foi expulsa da Uniban. A Geisy já está muito ''falada''. Falam mal desde que ela resolveu ir à faculdade com aquele vestidinho rosa-choque e saiu ''abraçada'' com o pelotão de choque, sob o risco de ser linchada porque mostrou as pernas.
Eu não ia dizer nada. Mas diante da decisão da Uniban de expulsar a Geisy - ainda que a instituição tenha voltado atrás - não deu para ficar quietinha. O que fizeram com esta moça fere um princípio elementar: o de cada um fazer o que gosta, vestir o que gosta, viver como gosta.
Acho que ela jamais imaginou naquele dia, em frente ao espelho, enquanto se vestia para ir à faculdade e depois curtir a balada, o que ''causaria'' nos invejosos de plantão porque ousou ser livre e usar um vestido do tamanho que considerou apropriado aos seus desejos. Porque as pessoas se vestem para se embelezar, para atrair, para serem desejadas, por que não? Roupa é também um emblema, um estado de espírito, que a gente veste ou despe para comunicar alguma coisa.
Nudez, no país do carnaval, deixou de ser mistério há muito tempo - o que até lamento - mas também não pode ser vista como pecado. Afinal, as crias fogosas do Brasil ''liberal'' estão todas por aí: a Mulher Samambaia, a Mulher Melancia, a Sabrina Sato que os invejosos de plantão comem com os olhos. Mas como são mulheres da televisão, mulheres da Marquês de Sapucaí, as celebridades estão fora do alcance, não têm a vulnerabilidade das Geisys que viram alvo de insultos porque são anônimas.
Assim, mulher comum que se veste de forma ''inadequada'', merece ser xingada, numa execração coletiva que resume a violência de um apedrejamento verbal. Estavam lá rapazes e garotas de classe média, cansados de ver seios e coxas, unidos para um ato medíocre de desrespeito à individualidade da Geisy. O que me dá náusea é pensar que a horda é universitária, formada por pessoas que têm um mínimo de informação sobre direitos e liberdades. Mas resolvem fazer o papel medíocre de censores e guardiões de bons costumes que eles mesmos burlam na primeira oportunidade de ''pegar'' uma fêmea para consumo.
Ou alguém acredita que aqueles rapazes e moças que ofenderam Geysi jamais encararam uma farra, um ato ''ilícito'', um comportamento que não se exibe na sala de TV na frente de papai e mamãe?
O que os atingiu foi a sensualidade da moça sem máscaras sociais, sem inibição de mostrar as pernas como uma bandeira ao prazer. Mas a sexualidade feminina, na cabeça da horda, deve permanecer oculta para que não provoque sua libido e sua incapacidade de expressão sexual. Trata-se então de uma horda de reprimidos que na primeira oportunidade quer esmagar a libido alheia, porque não assume o próprio tesão. E tesão reprimido vira uma bomba de energia nefasta e mal distribuída, uma carga explosiva de desejos insatisfeitos que nos mostram a face nauseante da Idade Mídia, em que a moral é um escudo falso de intenções mal resolvidas.
O que a horda fez foi uma catarse fortalecida na falsidade dos bons costumes. Na primeira oportunidade, aqueles rapazes e moças vão atrás do trio elétrico esfregar as vontades ocultas pelos abadás. Porque no carnaval pode, mas na faculdade, pelo menos a olhos vistos, o corpo é tabu e quem rompe a barreira merece ser linchado. Deus nos livre do tesão reprimido desta gentinha. E, se querem saber, não vi nada demais no vestido da Geisy. Sem decote, com mangas largas, era apenas um vestido curto que, afinal, mostrou o quanto é curta a mentalidade de uma parcela da nossa pobre juventude universitária.
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