CELIA MUSILLI
PUBLICAÇÃO
sábado, 29 de agosto de 2009
Fragmentos 
Quem não sustentar no olho os faróis da paixão, não ame. Quem não suportar o risco de uma estrela cadente, não ame. Porque o amor, desde que nasce, se precipita num vácuo de beleza por onde escorregamos como quem brinca de descer ao abismo, achando mágica a precipitação que acontece como em alguns brinquedos quase proibidos. Já giraram na roda gigante com a cabeça em ângulo de 180 graus, quando o brinquedo sobe e parece que vai nos lançar no espaço? Pois assim é o amor.
Já andaram na roda gigante quando o brinquedo desce e nos balança num outro ângulo, como se fossemos espatifar no chão? Pois assim é o amor.
Com todas as advertências daqueles que elegem o juízo sobre a aventura, penso que no dia em que fechar meus olhos para sempre, o rastro mais bonito atrás de mim será o de todos os amores vividos e vencidos, vividos e perdidos, vividos e reconhecidos como o amálgama que mais intensamente me ligou ao ato da existência.
Assim, escrevo para falar de amor e cumpro outro desafio: o de quem vive e rasga os conselhos como páginas mortas, de papéis timbrados, desses que pertencem às pessoas que não sabem amar, nem doer nem tampouco viver. As páginas picadas caem como confete ou as cinzas de quem não brincou o Carnaval.
Coração de pássaro
Ela tinha um coração de pássaro que se sobressaltava. Talvez não fosse o coração, mas o ouvido, que se alarmava com o toque do telefone, os passos dos insetos, o ronronar do gato na cozinha, enquanto ela ficava no quarto, num falso silêncio. Porque na sua cabeça os sons não paravam nunca, sempre havia um trecho do Bolero de Ravel, uma música de Tom Waits, o refrão de ''Quizás, Quizás, Quizás.''
Em dias de chuva, as goteiras pareciam agulha alinhavando a água, ruído fino como se a costura nas moléculas de H2O resultassem num grito de VIDA, uma emergência na qual ela estava tão mergulhada que tudo se redimensionava. Os barulhos dobravam, o tato ardia, a fala estendia-se por um vocabulário desconhecido. Porque há palavras que se desconhecem, misteriosas como o éter que não tem forma, mas existe.
Aquilo que dependia do olhar era tão grandioso quanto o que se ouvia. Tudo fazia parte do redimensionamento da vida. Porque ela tinha um coração de pássaro que se impressionava enormemente e também se deslumbrava como quem vê taças de cristal em tempos de vidro, selos secretos em tempos sem carta. Quando chovia, acontecia este exagero e um revoar da memória. Ruídos e imagens da infância, tudo tão datado que todos os poemas nasciam em 1960.
Assim, delicadamente suscetível, era melhor nem sair de casa. Desistia dos encontros e dos contatos, das conversas banais nos botequins hilários.
Nestes dias, esperava a delicadeza passar para não assustar as pessoas e se dedicava a imagens de cristal, gotas de chuva, ecos de conversas, crianças numa ciranda, o peixe no aquário, um poema de 1960. A sutileza por sua conta e risco.
Quase uma oração
Um dia a gente acorda e percebe que mudou, depois de levar muita porrada e ter os ossos moídos junto aos sonhos. Um dia a gente acorda e percebe que nem toda mudança precisa ser amarga, embora o que nos mova quase sempre seja a dor, esta parceira do imprevisto.
Um dia a gente acorda e descobre do lado do avesso um espaço zen, uma espécie de paz interior que nos adula e acaricia, como se a mãe voltasse a nos pegar no colo.
Nesse dia, inexplicavelmente, decidimos que o melhor a fazer numa manhã é plantar um girassol só para ver, dali a um tempo, sem angústia, dilema ou rejeição, que a vida dança a dança dos dervixes, e que a nossa entrega à vida é um ritual sem hoje nem amanhã.
A felicidade pode ser o ato de movimentar-se como os girassóis, para lá e para cá, só pra ver onde começa e onde termina o dia...sem pressa. Os acontecimentos não nos pertencem.
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