Como em Adélia Prado há em mim uma paisagem, entre meio-dia e duas da tarde. É nesta hora que sei que rumo vai tomar o dia. Se terá graça, aventura, o prazer dos minutos contados ou será um daqueles dias de matar leões, entortar as pontes, mudar o curso dos rios.
Cada dia tem seu desafio, engana-se quem acha que são todos iguais como naqueles enredos de gente sem imaginação: acordar, se vestir, tomar café, trabalhar, se deitar e achar que assim se vive.
Não, o dia já traz em si uma aurora nova e desconhecida, nuvens que chegam bufantes como as mangas de um vestido cor-de-rosa. Ou pretas como as que anunciam a tempestade que existe também para derrubar as folhas, sacudir os frutos, tirar a gente de casa na marra, de guarda-chuva debaixo do braço, como um dedo em riste, pedindo explicações assim: ôÓ Deus! Me diz, por que fazes dias assim tão graves?" Quando falamos com Deus é sempre na segunda pessoa, diferente daquele intimidade com que falamos com os amigos que estão aqui na Terra, arrematando: ôÔ cara, você bem podia maneirar a bronca, tomar uns modos, uma aula de felicidade ou de bom comportamento em vez de exalar seu mau-humor, como um daqueles cheiros que nos tragam sem mais nem menos. Cheiro de cidade grande, com humores a céu aberto e todo mundo louco para fazer não sei o quê. Xingando no trânsito, atravessando a rua de cabeça baixa, jogando na loteria pra ver se consegue a grana para uma vida vencida, com muitos juros e sem muito prazo."
Já com o namorado a gente fala adoçando a língua: ôÔ meu amor, vê se me envia uma ternura, uma palavra, uma lembrança rendada. Vê se pisca para mim ao menos, para que eu guarde a impressão de ter visto uma estrela, um inseto que traz sorte, um pássaro colorindo o dia, uma borboleta nos dando a leveza necessária."
Há muito modos de falar com as pessoas e mudar o dia. Sempre acho que os dias são moldados com palavras. Se leio Khayyam, eles já nascem embriagados. Fica difícil pegar no pesado, bater cartão, olhar pro patrão com aquelas cítaras e o poeta a declarar: ôBebo vinho/ e não passo a vida a lamentar-me."
É diferente de quando leio Pessoa e vem aquela desilusão sensível, uma desesperança de quem, ainda assim, capturou a beleza: ôCircunda-te de rosas, ama, bebe e cala/ O mais é nada..."
É sublime quando encontro Neruda, como um amigo que me pacifica:
ôSe cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.
há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência."
Acho que teço dias como quem tece palavras. Uma gentileza e o rumo das coisas muda, como quem pega uma pedra, lapida e faz um colar. Uma rispidez e o rumo das coisas muda, como quem pega pedras e as atira para ferir quem estiver pela frente.
Claro que nem tudo depende do que dizemos, muita coisa depende do que ouvimos, do que nos dizem com a intenção de nos lapidar ou ferir. Mas o humor para mim se define nas primeiras horas do dia, quando ainda não se assentaram as amarguras como poeira nos móveis. Quando ainda há chance de limpar o chão, recolher as cascas como quem elimina o passado com vassouradas, uma balde d’água e alguma alegria.
Mas como ia dizendo, sinto em mim uma paisagem, entre meio-dia e duas da tarde, quando já se desenhou o que vem pela frente e, na ausência de um sonho mais bonito - quando a chuva vem e o tempo tem a cara de um deus rabugento - improviso um texto que é quase uma oração: ôAinda que eu não seja Adélia, que eu seja Célia, renovo a cada manhã a esperança de um dia bem-sucedido. No qual possa rezar às seis em ponto a Ave-Maria, com a certeza de que havia pelo menos um anjo me ouvindo quando acordei diante do imprevisto, entregando à aurora meus atos e minhas palavras."

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