Celia Musilli
Uma cidade sob a neblina
Hoje Londrina amanheceu com fog. Alguns dizem que isto acontece porque ela é filha de Londres. Uma filha distante, meio bastarda.
Na verdade, Londrina foi colonizada por ingleses, japoneses, árabes, paulistas, mineiros, baianos. Um caldeirão cultural que fez dela uma mulher versátil e muito atrevida. Que outra cidade teve Arrigo Barnabé, que depois foi parar na vanguarda paulistana? Clara Crocodilo sumiu?
Que outra cidade teve Itamar Assumpção andando em suas ruas quando adolescente? Que outra cidade tem Mário Bortolotto, que sempre dá as caras por aqui, para beber bourbon e falar de blues?
Hoje Londrina amanheceu com fog. Na avenida que atravessa meu bairro, os motoristas, às 6h30, não enxergavam um palmo diante do nariz. Dirigiam pra lá e pra cá, como teleguiados. De vez em quando uma gaivota, destas que dormem no lago, levantava voo e, no meio da névoa, seu movimento era um papel nas alturas. Osana nas alturas!
Londrina amanheceu como uma pintura.
Mais um pouco e um capitão pirata chegaria de barco. Porque os ingleses eram todos piratas e hoje são fantasmas. Colonizaram a terra, levaram a madeira e nunca mais se viu qualquer sombra deles por aqui.
Os ingleses vieram? Não vieram? Eles existiram?
O fog de Londrina é a dúvida. Cenas que desaparecem na neblina. Nos dias frios, os fantasmas vêm às 6h30 da manhã. Até que o sol nasce, dissipando a umidade. Então concluímos que Londrina não tem fog. Tem uma cerração tropical, destas que me fazem bater com a cabeça na vidraça. Porque dá um medo danado de ter acordado no paraíso.
Sobre o inverno
O frio aumenta ao cubo meu desamparo. Com dedos congelados à revelia, não sei o que fazer quando as letras não obedecem... X vira C, W é Q. Este teclado faz um barulho seco, como o clima de céu estrelado e inverno declarado que me deixam sem o ânimo do verão. Naquela estação sim, eu ouço as abelhas zunindo para fazer mel, douradas confidências que pingam dos enxames enlouquecidos, quando as rainhas batem na vidraça a teimosia antes do inevitável acasalamento. O amor é zoom e zumbido.
Mas vem o frio e nem os insetos aparecem por aqui. Lagoas têm aparência de vidro, pássaros ficam em silêncio, o dia termina mais cedo e a noite é um assombro de temperaturas baixas e sonhos que se precipitam com as ventanias. Ando de mal do clima. Passageira dos dias breves e das noites longas onde não há insônia, mas um desconforto nos movimentos contidos, braços e pernas encolhidos, um pensamento que se alonga na melancolia. Eu que nasci nas geadas ando sem o alento das fogueiras do espírito. Palavras se calam, inspiração não brota. A natureza de vidro me faz sentir como cereja em conserva, sem a explosão das flores e os perfumes da sua origem. Resta um gosto de licor derramado entre o céu da boca e a minha língua. A alegria pode ser tão antiga.
Todas as estações
Primavera
Girassóis atraem abelhas pagãs. Elas viajam num metrô imaginário. De praça em praça, de flor em flor, polinizam a cidade. Entre o asfalto e a rosa, o perfume consagra a última primavera.
Verão
40 graus de sol e sal. Na pele de lontra, uma mulher anfíbia se deita na areia. É verão nos calendários móveis. O mar lambe sua boca como um homem que sabe o que faz.
Outono
Assim renascem as manhãs. Nos pomares que se abrem na estação, com suas romãs, uvas e maçãs mostrando sob as folhas, como um olho mágico, a natureza viva, silenciosa e grávida de sementes.
Inverno
Ela foi embora antes que os termômetros indicassem baixas temperaturas. Era branca a memória e as narinas sopravam a respiração dos amores de partida. Let's go to the winter! O pomar sem frutos estalou seco e veloz como um trem de passageiros.
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