Ontem acordei com dor do lado esquerdo, ao fim da coluna vertebral. Me incomoda essa dor. É estranho imaginar as emoções embotadas no corpo, mas ele é como uma esponja, absorvendo o que se passa na mente, repercutindo os estados psíquicos. Então, não duvido de nada.
De vez em quando pego um mapa do corpo cravado de linhas. Comprei-o outro dia, depois de perder outros mapas iguais. Mas sei que não posso perder os mapas do meu próprio corpo: a oeste, um estoque de lembranças, ao sul, um território de pegadas, ao norte, as elucubrações que fiz em 50 anos ou 18.250 dias e algumas horas. A leste - ah! a leste! - a região marítima dos afetos, todas as ondas e pulsações, os mergulhos e uma gaivota que sempre exige a liberdade e que sai piando dos cardumes, mesmo sem nenhum peixe, como se dissesse: ''Adeus! Adeus!'' E seu barulho é a dor de nunca mais.
Os pontos cardeais do corpo são minha geografia. Conheço como ninguém meus portos e meus escombros. Tudo mapeado e incrustado como jóia no tesouro da vitalidade, que passa como um filme de aventuras. É, gastei bem meus anos. Nunca omiti desejos, persegui quixotescamente os sonhos, dei gafes, acertei quando a chance de errar era de 99,9 por cento. Acredito que uma estrela brilhou na hora do meu nascimento e as preces de minha mãe valeram todos estes anos. Não fossem ela e Nossa Senhora, eu teria sucumbido aos meus impasses, à minha desordem, aos movimentos bruscos que empreendi em rotas de desejo e fuga. E se deixo tudo isso por escrito é porque receio que um dia não volte para falar do mapa mundi do meu corpo. Carta celeste de pontos de interrogação, exclamação e muitas reticências....
Meu corpo é bem cuidado, mas às vezes sofre sobressaltos e deve ser um desses que instalou-se no lado esquerdo, como uma dor aguda. Dói muito, começou de madrugada. Cismada, tomei os chás da avó e dois tipos de analgésico. Não passou, não passa. Vou ver o que o médico diz, com a frieza de seu estetoscópio sondando as minhas costas, investigando as causas, tateando a dor entalhada que alojou-se ali.
Antes olho os mapas da medicina chinesa, os pontos de circulação da energia vital. O fluxo do corpo impedido por um obstáculo do qual não adivinho nem o nome.
Imagino que as dores sejam sempre a última instância de um longo caminho energético. Formam-se vales, montanhas, rios, clareiras inesperadas. No âmago há sempre uma causa secreta, cavernas que trazem o eco da história. As lendas pessoais figuram como um depósito de conchas que o mar interior amontoou e que surpreende. Calcificações de memórias, fibras, alguns ossos duros de roer, a ostra e sua pérola reluzente. Tudo isso para explicar que acordei com dor aguda. Vamos ver o que diz o pajé. Se eu não voltar amanhã, deixo as lembranças de meus pontos cardeais: norte, sul, oeste e o eterno leste, onde fica a luz antiga da minha alma guerreira, meu avatar que galopa com um Pégaso imaginário. Vou para o leste. Meu Deus vive a leste. Meu corpo é sua morada que se alegra e, às vezes, dói.

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