Tem gente que não gosta de Brasília. Não pelo que ela representa como sede do poder. Porque sob este aspecto, compreendo, é nauseante mesmo. Tem gente que não gosta de Brasília pela sua configuração arquitetônica, pelas linhas que Lúcio Costa e Oscar Niemeyer elegeram para construí-la, dando à cidade o recorte moderno e imponente. Sob este aspecto, devo dizer que sou fascinada por aquela arquitetura, pelas retas e curvas que se harmonizam como um sonho que saiu das pranchetas e ficou em pé.
Para mim, a contradição de Brasília é outra. Foi ter nascido para ser cidade não pela contingência de uma população, mas para receber uma população depois de pronta. Esta inversão da lógica, em que primeiro se cria o espaço e depois as pessoas vão chegando, cria um dilema de adaptação. Porque as cidades que se formam espontaneamente - primeiro por um núcleo humano que vai desenhando o espaço urbano - fatalmente têm a cara de seu povo, suas escolhas ziguezagueando nas ruas, o lugar das praças determinados pelas aglomerações intuitivas de quem elege o local para um descanso, antes mesmo de existirem bancos.
Já em Brasília foi diferente. Primeiro veio o concreto, depois o homem. E o homem haveria de se adaptar ao concreto, aos centros disso e daquilo, aos locais onde só se trabalha ou só se reside, destino das cidades modernas onde os planos não se misturam. Esta divisão provoca um estranhamento, como se a vida padecesse de uma descontinuidade. Aqui sou uma pessoa que trabalha, ali sou a pessoa que descansa, mais além aquela que se diverte. Na verdade, é bom sair do escritório e encontrar a diversão bem perto, o bar onde estão os amigos recém saídos da mesma batalha, a vida em continuidade, a vida em fluxo, ao alcance da vista. Sem grandes vazios a nos conduzir a outra parte, como se despíssemos um pedaço da nossa identidade para vestir o outro.
Às vezes penso que os arquitetos de Brasília foram homens solitários, porque não pensaram a vida em fluxo, separaram em gomos as atividades e, assim, fica difícil ver a vida inteira.
Mas o que mais gosto em Brasília é que a cidade, consagrada ao poder desde o ''útero'', cresceu como uma planta rebelde, contrariando os cálculos. As cidades-satélite de Brasília têm um entorno empobrecido e teimoso que vinga em condições inóspitas e miseráveis. São feias de doer, contrapondo-se à beleza das linhas puras que deram origem à capital.
Em Brasília, há outro aspecto humano que salta aos olhos. Gente de todas as regiões forma a população mais mestiça do Brasil. E não é uma mestiçagem de raças, é uma mestiçagem de expectativas: índios urbanizados, boiadeiros empobrecidos, aventureiros que vêm dos garimpos, sulistas e nortistas em seus ternos, escritórios invisíveis, automóveis com chapa branca. Um carnaval de euforias, uma expectativa dos diabos de todos pertencerem à cidade.
Brasília tem uma beleza nauseante. Mas padece de algum mal secreto que, de vez em quando, a faz sangrar em notícias ruins. Por estar num ''paralelo mágico'', ela guarda sim um mistério, talvez o da amplitude do céu espetacular do Planalto, que dá até medo. Lá o céu é estupendo e o ar muito seco. Cria-se assim uma condição de visibilidade em que, por mais que se tente, nada se esconde. Até por isso, talvez, mais dia, menos dia, os escândalos venham à tona. Nem os ratos passam despercebidos, apesar de tantas galerias.
Portanto, homens de Brasília, cuidado. A configuração astral desta cidade é de muita visibilidade, como se tudo pudesse ser descoberto. Tudo se escancara no céu de Brasília. Aquele firmamento tem algo de mágico que permeia todo o Planalto. Onde tudo é visto, ao mesmo tempo em que se mantém a aura de um mistério inexplicado. Há lugares assim no planeta. Há lugares neste mundo que não são deste mundo. Para mim a região Centro-Oeste é assim.
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