Exercício sobre o tempo presente

Quando tudo terminasse, ela veria o rastro da estrela que encontra a aventura no seu próprio abismo, a moldura de um retrato antigo onde faltaria a imagem, o cheiro da flor que ninguém vê, a estrada que se bifurca levando os passageiros a se confundirem sobre a direção.
Quando tudo terminasse, ela faria inventários das angústias e da suprema felicidade, momentos que se alternam como a noite e o dia, o frio e o calor dos corpos, a reunião e a dissipação das nuvens.
Quando tudo terminasse, o que foi dito faria um sentido maior, como o eco das coisas suspensas num tempo que não existe mais, no espaço que foi modificado, no caminho que se abriu para outras passagens, como os círculos que se desenham na água quando a pedra bate e se multiplicam, se multiplicam, se multiplicam em roteiros inimaginados, cheios do encanto do imprevisível.
Então, e só então, os dois veriam o quanto é inútil puxar os fios do passado, das coisas que mudaram de lugar, dos rostos que nunca serão os mesmos, dos amores que se refugiaram em outra dimensão.
Assim como é inútil pensar sobre o futuro, este senhor inescrutável que não se mostra nem se escuta, a não ser como um exercício de imaginação de uma vida que ainda nem existe e está sujeita ao nascimento, como tudo o que existe está sujeito à extinção.
E veriam que o importante é desejar sobre o presente, o momento, o instante, o átimo, tocando cada filigrana dos acontecimentos porque tudo está à disposição por um tempo determinado, o tempo presente que acaba a cada dia, sem a chance de ser retomado quando tudo, enfim, terminasse, num movimento plácido, vivido e completo como o pouso da garça num espelho d'água.

A quem sonha
  Existe o momento de não se tocar na ternura, para que adormeça intacta como a beleza a ser contemplada. Existe o momento de não desatar a fantasia, para que os laços não se desmanchem. Existe o momento de guardar silêncio em meio aos discursos, para que as revelações se aquietem como sentidos que não requerem tradução, mas se expressam como a veia no pulso, viva e oculta. Existe a hora de acordar e a hora de dormir, não nesta ordem. Mas as duas coisas têm a mesma intensidade sobre a qual deslizamos, reconhecendo tons, nuances, diversidades, opostos, superfícies.
  Hoje quero falar e me calo, para guardar a impressão profunda da descoberta indizível, destas que, por essência e mágica, pertencem ao reino do que apenas se sente. Apesar de todas as línguas, linguagens, sintaxes e articulações existem momentos de não se tocar na ternura, não se falar de amor, de adormecer como os tolos que desconhecem palavras. Deixar que a sensação seja a de um arrepio, sutil demais para que permaneça nos poros.
  Existe a hora de expressar e a hora de sentir, embora as duas coisas se misturem e o silêncio às vezes diga tanto quanto a noite prolixa de ruídos e estrelas. Você sabe, existem vozes que não se escutam, luzes que nem se veem.
  Então, hoje quero adormecer como quem desconhece o verbo. O que eu tinha a dizer foi brisa, a delicadeza de uma canção sem ecos, destas que sobem até as nuvens e se dissipam, carregando o som e as rimas de um instante único. A isto eu chamo ‘‘abstração do afeto’’, que não se traduz nem se toca, embora se adormeça no abraço intangível de um sonho. O amor é um pássaro que precisa voar entre as sutilezas.

mockup