'A Favorita' dá final trágico, lamentável e de mau gosto a uma personagem

Não sou uma espectadora regular de novelas. Assisto a um capítulo, salto outro e vou costurando a trama. No fundo, gosto tanto de novela quanto gosto de beber: ou seja, não faço questão e na segunda cerveja já enjoei do bar.
Mas ''A Favorita'', que terminou esta semana, merece uma análise pelo insólito rumo que o autor João Emanuel Carneiro deu a uma personagem. Dedina, que era professora e mulher do prefeito de Triunfo, Elias, apaixona-se por Damião, um capoeira dos bons, e tem um destino desumano, imaginado pelo autor que ultrapassou a barreira do absurdo, chegando à mediocridade.
Nem em novela mexicana uma personagem teria um fim daqueles. Depois de ser ''denunciada'' ao marido, a infiel Dedina é atirada na rua, passa pelas piores humilhações e , finalmente, morre quase como indigente pedindo perdão pela traição, como se fosse a única responsável por todos os atos.
Num triângulo amoroso todos são responsáveis, não existe a ponta mais perversa. Mas em ''A Favorita'' é a mulher quem paga pela infidelidade com a própria vida. E ainda tem gente que diz: ''Bem feito!'', numa prova de que a inquisição moral é atuante e ocupa um espaço enorme na sociedade contemporânea que dá conta de quase tudo, menos dos tabus que envolvem a sexualidade feminina.
Ora, Dedina tinha formação e emprego, era professora, só na hipótese absurda de um autor machista, uma personagem com suas características terminaria ''na rua da amargura'', como na letra de um bolerão. Mas João Emanuel Carneiro caprichou no ''tango'' e conseguiu criar para Dedina um final tão trágico quanto ridículo, para dar não se sabe qual exemplo aos homens que, mesmo sem assistir novela, já maltratam e matam mulheres por bem menos.
Nesta quinta-feira em que escrevo o texto, não sei qual será o destino de outros personagens. Enquanto Dedina foi levada à fogueira, Leonardo, o cafajeste doméstico que batia na mulher Catarina, nunca ouviu falar na Lei Maria da Penha, como desconhecem a lei todos os moradores de Triunfo, um lugarejo onde as ''infiéis'' são atiradas na rua para regozijo das bisbilhoteiras de plantão. Por enquanto, Leonardo foi preso por tentativa de estupro, é grosseiro e alcoólatra, mas está lá, vivinho, e é bem capaz de passar a frequentar o AAA para terminar a novela de bem com o público.
O que me surpreende, muito mais do que a mente engenhosa de um criador de ''tangos'' televisivos, é a incapacidade das mulheres - justamente as maiores espectadoras de novelas - de reagirem às humilhações públicas a que são submetidas em nome de uma falsa moral. Ao contrário da comunidade gay, que reage à altura quando vê insultados os seus direitos e corrompida sua imagem, as mulheres modernas são passivas espectadoras de novelas que vêem uma ''traidora'' ser punida com a morte na trama das 9 e não reagem ao absurdo. Continuam acatando a moral frouxa, que faz enorme diferença entre homens e mulheres, e permanecem na poltrona comendo pipoca.
Não sou exatamente uma feminista. Minha geração pegou carona em direitos já consolidados e algumas bandeiras até me dão a impressão de ''dèjá vu'', destituídas de criatividade. Mas me causa descrença, pra não dizer desgosto, perceber que a ''revolução sexual'' desaguou numa liberalidade que coloca as mulheres de peitos e bumbuns de fora, mas sem avançar, ou avançando bem pouco, na discussão sobre a sexualidade e os direitos de escolha. Na novela das 9 uma mulher morre à míngua porque traiu o marido e o ibope dispara para 46 pontos, sem nenhuma reação feminina a todas as violências físicas e morais que sofreu. Dedina morreu como uma Madalena contemporânea, apedrejada até o fim pelos fariseus do folhetim. Dedina morreu como Geni, boa de usar e de cuspir. Um ''tango'' trágico, lamentável e de péssimo gosto.

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