CÉLIA MUSILLI
Trato sempre com delicadeza as pessoas a quem amei. Ainda que tudo aquilo que amei um dia perca a conexão com seu significado. Mesmo assim, sou do tipo que respeita até o fim o que amei e não me valho de subterfúgios para dizer o que precisa ser dito. Não deixo fotos na parede, não deixo pistas de abandono. Peço que desmontem as cenas que causam ciúme e dor. Dou eu mesma a instrução que indica a mudança de rumo. E sinalizo a estrada: ainda que triste como o ocaso, solitária como a árvore-mãe, imprevisível como um caminho que se perde, me despeço com o agradecimento dos simples e a graça dos puros.
Quando vou embora, sempre olho nos olhos das pessoas a quem amei. E, da mesma forma que me abri em pétalas, recolho-as com gratidão por um dia ter desabrochado. As pétalas deixo nos livros onde os poemas guardam o segredo das imaterialidades. Alguém sabe a quem se destina o canto, a pausa, o movimento de delicadíssima despedida como pluma de afeto que não se sustenta no ar?
Os poemas são todos feitos de sentimentos que merecem a celebração das vitórias e a unção das derrotas. Então, deve haver um perfume, um âmbar que sele para sempre o desprendimento das histórias de amor. Por isso, acaricio até o fim as pessoas que um dia amei. Sua passagem é como a fumaça do incenso levando minha dor inconfidente e os fios desconectados de uma indizível saudade. Não estão mais aqui as pessoas a quem amei. Mas elas vivem em mim, nos espaços das dádivas e das ternuras.
A geografia do silêncio em meia dúzia de palavras
Agora é o silêncio. Depois de garimpar palavras, revirar o texto, tecer o verbo, desfolhar os significados como girassóis profanos que viram a cabeça dos homens e as rosas puritanas que se dão às esposas loucas por naturezas mortas. Agora é o silêncio. Depois de acertar o alvo, ferir com a seta, lamber a ferida, olhar a cicatriz como quem vê o porto e o navio partindo no mar onde o azul desmaiou, grande como o amor na tarde repentina.
Há sentimentos assim, intensos como a visão de Gauguin, as mulheres do Taiti, a eloquência de Rimbaud, a emoção de Pessoa percorrendo o Tejo e as águas do desejo derramadas na terra onde só ficam as lembranças quietas.
Aqui e ali eclodem as sementes, mas nem tudo cresce. Seleção botânica e natural ou a escolha injusta dos que pisam os botões das ternuras despetaladas.
Agora é o silêncio. A lei que vale ouro é sem palavras e a prata dos meus versos é o que ninguém decifra. Criptografia sem chave, hieróglifo empoeirado, inscrição rupestre onde os amantes cavam a arqueologia do afeto, tesouro de Ísis, a que foi além do Nilo e do Saara. Geografia de emoções, histórias, o silêncio entre as lendas da mulher esfinge. O amor, meu rei, sempre me devora.
Oceânica
Se eu tivesse juízo, não pensava mais em amor. Estive por aqui de amor, ó. Mas eu gosto tanto. Sou riquíssima em perdas e delicadezas, sei que não sou a única, mas rios delas correm dentro de mim. E a nascente dos sentimentos, apesar de tudo, não seca. E na foz das palavras quantos versos, quantos cantos, quantos encantos, quantos sussurros.
Mas, como eu dizia, se eu tivesse juízo, não pensava mais em amor. Pensava numa vida prática, tudo nos seus lugares, sem esperanças nem ilusões. Apenas a vida, a vida como um riachinho, onde a gente afunda os pés, só até os tornozelos.
Mas eu sempre quis o oceano, navego muitas vezes sem farol, a esmo, correndo o risco das águas profundas. Nasci marinheira, sabe? Marinheira e poeta. Na palavra, e só nela, encontrei a redenção das delicadezas doídas, tatuagens diáfanas do meu espírito sempre inquieto.
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