1 minuto de imaginação
Ela fazia uma aula prática: ''Como desenhar nas nuvens.'' Desenhar não é bem a palavra, talvez seja ''desdesenhar''. Porque é difícil construir com o vento, criar um cavalo com as patas sopradas. Então, Ana virou a idéia do avesso: ''Melhor desconstruir um animal, que se transforma em planta, uma planta aquática, com as extremidades se alongando como água-viva, inflável.''

O exercício de desenhar nas nuvens é coisa da infância de Ana. Reminiscências, palavra bonita como cintilância ou luminescência que parece a junção das duas coisas. Só parece.

Ana pensou que é bonito escrever. Tão bonito quanto olhar as nuvens que se ''desdesenham''. Escrever e imaginar tornam as emoções flexíveis, elas se movem quando tocadas por uma leveza insuspeitada, destas que nascem de um sentido qualquer de liberdade.

A liberdade pode ser imensa ou uma coisinha assim, à toa, como imaginar desenhos e palavras, perceber que isto é um projeto de mundo e cabe no instante.

Cotidiano
Depois que passa a folia e desfaço a alegoria, volto ao meu espaço interior. É lá que eu fico bem quieta. À sombra do oásis onde passam as caravanas tortas, estrelas cadentes, ventos quentes, pensamentos que voam. Dia após dia, o que se forma é nossa paisagem íntima, um cruzamento de rios, montanhas, matas, dunas, vales que se perdem de vista. E não deixo pássaros na gaiola. Eu quero morrer como um mapa-múndi.


Declaração de amor
Eu queria te pegar assim como quem pega um pássaro, num flagrante. Pegar um pássaro demanda leveza, destreza, malícia, surpresa. Pegar um pássaro não é para qualquer um.

E antes mesmo que você se debatesse, tentando escapar, eu te alisaria as plumas dos pés à cabeça dizendo: ''Beija-me flor...'' com a boca irrecusável.
Num segundo as resistências se desmanchariam, transformando a sua teimosia na minha poesia, porque o amor, meu bem, só depende de um átimo.

O verbo do gato
Sempre que uso a palavra ronronar, alguém me pergunta o que significa. Ronronar é o verbo do gato. Um ruído que eles fazem quando querem dizer que a situação está bem confortável e agradecem a dádiva ao dono. Ontem meu gato ronronou na pontinha do edredon, como se me pedisse licença. Disse coisas que eu compreendo mas que não têm tradução. Porque ronronar é o afago que o gato dedica a si mesmo. E enquanto entoava aquela melodia, mexia as patinhas como se amassasse pão. Às vezes eu quero ser gato. Para me sentir assim num estado de satisfação, numa contemplação despojada da vida. Adormecendo com o barulho do meu próprio motor de múltiplos sentidos. Sem esforço, sem desencanto, sem amanhã. Apenas um gato, ronronando sem ilusões de chegadas ou de partidas.

Estação felina
Chuva e frio mexem com meu clima interior, alteram meu PH, eu fico indócil. Então, fora o trabalho, fico quietinha em casa, debaixo do meu cobertor. Aprendi com os gatos. Eles hibernam o tempo que for necessário, acalentam planos e aguardam dias de sol. Aí sim, quando vêem a luz naquele céu de verão, põem uma pata pra fora do cesto, depois a outra, espreguiçam esticando, ao máximo, cada vértebra, enquanto as imobilidades estalam. Depois é só pular a janela, sentir o cheiro da grama, mirar o pássaro e declarar ''bem-te-vi'', indo à luta como quem vai à caça, mas sem cão nem dono. Por enquanto, espero e ronrono.

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