Alguns textos me atiram para outra dimensão, a viagem dos sentidos sempre começa nas palavras

  Existem livros que são inesquecíveis. Sempre retomo a leitura de ‘‘Afrodite’’, de Isabel Allende, no qual ela traça paralelos entre a cama e a mesa. De um modo profundo, ela pontua aquilo que, assim como os afrodisíacos ou os venenos, pode encantar ou corroer o coração.
  Ela diz sobre o amor: ‘‘Nada pode deter a paixão acesa entre duas pessoas apaixonadas. Neste caso, não importam os achaques da existência, o furor dos anos, o envelhecimento físico ou a mesquinhez das oportunidades; os amantes dão um jeito de se amarem porque, por definição, esse é seu destino. Mas o amor, como a sorte, chega quando não é chamado, instala-nos na confusão e se desmancha em neblina quando tentamos retê-lo.’’
  São muitos trechos sensíveis e, como talentosa cozinheira, ela tempera a narrativa com textos de outros autores. Eles me atiram para outra dimensão porque, em mim, a viagem dos sentidos sempre começa na palavra, alcança o murmúrio, chega ao sussurro e encontra seu porto nos sons ininteligíveis, porque disso é feita a conjugação do amor.
  Na narrativa de Isabel Allende encontra-se de tudo, de textos antiquíssimos à avant garde. E, sem muita explicação, vou derramá-los como chuva, melhor ainda, como uma tempestade de palavras:
‘‘Perfumei minha alcova
Com mirra, aloé e canela.
Vem, embriaguemo-nos de amores até a manhã.
Fartemo-nos de amores.’’
(Provérbios - 7: 17:18)
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‘‘O sexo deve ser misturado com lágrimas, risos, palavras, promessas, cenas, ciúmes, invejas, todos os componentes do medo, viagens ao exterior, novos rostos, romances, histórias, sonhos, fantasias, música, dança, ópio, vinho. Só a pulsação unânime do sexo e do coração juntos podem criar o êxtase.’’
(Anais Nin)
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‘‘Que é a Vida? Uma ilusão
uma sombra, uma ficção.
Pois toda a vida é sonho
e os sonhos, sonhos são
(Calderón de La Barca)’’
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  Navegando por tantos afluentes de palavras, pergunto qual o curso das minhas águas? Eu que vivo rodeada de gente, que tenho amigos, filhos, afetos e desafetos, amores passados, presentes, futuros, às vezes me adivinho perplexa, sem saber a quem destino algumas frases.
  Neste ponto lembro-me de uma amiga que um dia constatou que ninguém compreendia a sua linguagem. Seda esgarçada e fina, renda, veludo, algodão ou chita colorida que não faziam sentido aos ouvidos surdos, ao tato grosseiro das rotinas, aos olhares indiferentes. Quem devia ouvi-la não tinha mais tempo. Vagava em desculpas desconcertadas, viajava ao Xingu, Berlim, Plutão, numa sucessão de desencontros que significa o fim do fluxo, o esgotamento das possibilidades amorosas.
  Então ela cansou do faz-de-conta e só pediu a verdade. E diante da quietude assombrosa do ‘‘não’’, ela compreendeu que, dali para frente, também dedicaria à realidade apenas o silêncio. Não haveria mais pressa nem ânsia pela interlocução. A partir disso, suas palavras correram todas para o mar da ficção. Ela não chegou a ser Isabel Allende, mas fez da literatura a instância suprema da sua liberdade.

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