Diante de fatos tão crus e da realidade nua, dei de ler os Classificados
Todas as manhãs o ritual se repete, ler o jornal enquanto se toma um café quentinho é ainda uma das coisas boas da vida. Coisa que a gente faz a semana inteira, mas adora exercitar no domingo com a calma que só existe num dia dedicado à preguiça, ao ''dolce far niente'', sem hora para começar, sem hora para terminar a leitura.
O problema é que não se encontra o que mais se procura. Cadê o lirismo das páginas? Onde se escondeu a notícia boa? O exemplo altruísta? Onde foi parar a velha senhora a que chamávamos Dona Esperança? Para onde se mudou a solidariedade?
Se alguém souber seu endereço me diga, preciso urgentemente de informações construtivas, emoções alegres, manchetes leves como o vôo de um pássaro matutino. Aqui em casa tudo segue em ritmo normal. O gato bebe seu leite, as crianças batem bola, a janela se abre para um jardim onde plantei margaridas, no quintal uma árvore cresce anunciando um futuro cheio de rolinhas e pitangas.
O problema é lá fora, senhores, onde a aventura urbana converteu-se em drama, novela barata, tragédia cotidiana a um ponto que a mais inverossímil ficção passou à categoria de ''agora é tudo verdade''. E como dói esta verdade. Vendedor é assassinado por menor que treinava a pontaria, bandido tatua no braço o nome da vítima, criança é morta por bala perdida, arrastão transforma praia em porto inseguro, bebê é encontrado no lixo.
Diante de fatos tão crus e desta realidade nua, dei de ler os Classificados. Deleito-me com anúncios que nem imaginava. Fico sabendo quanto custa o carro do ano, a casa com piscina, o apartamento modesto de um único quarto, um violão usado, um computador na caixa, uma sessão de massagem com ou sem erotismo. Ocupo-me até mesmo em ler as notas sem grande utilidade. Para que saber quanto custa o tambor de tinta para pintar cercas de fazenda? De que me vale a informação de que Seu Antonio vende ração para hamster, pistolas para pintura a jato, telhas usadas em bom estado, casacos que vêm da Argentina?
Eu juro que tudo, tudo mesmo senhores, é melhor do que se deparar mais uma vez com o assalto à mão armada, o crime no campus, o golpe do bilhete premiado, o engôdo a que submetem os aposentados.
Para me safar das notícias ruins faço de tudo. Leio a coluna das cartomantes, imagino que Dona Mara, a Vidente, pode me dar a satisfação da notícia boa, o prazer de um futuro maravilhoso, o dinheiro inesperado, a viagem de navio, as passagens aéreas caindo do céu para que eu possa, enfim, conhecer Atenas. Eu quase imploro: ''Minta para mim, madame.'' Diga que é tudo verdade nesta ficção novidadeira que me leva para longe dos fatos. Eu acredito nos búzios, eu acredito nas cartas, eu acredito que a senhora conversa com duendes, faz magia com cristais lavados nos rios do Himalaia, nas correntezas dos Andes, na neve do Monte Fuji.
Só não quero mais ver a chacina nas grandes cidades, o tiroteio na rua, o atropelamento em grande velocidade, o feriado por luto, o domingo atravessado por notícia ruim. Em busca de dias melhores, que certamente virão, prometo fazer a novena de Santo Expedito, de Nossa Senhora Aparecida, de São Judas Tadeu e de todos os santos dos desejos impossíveis. Eu ainda acredito em milagres e se conseguir um tantinho assim de esperança, publico as graças, agradeço neste mesmo jornal por ter escapado da fila dos aflitos, da procissão dos injuriados, dos leitores contrariados, dos cidadãos destituídos.
Eu quero mesmo é mudar a rotina, ganhar otimismo, ver fotos alegres, manchetes mágicas, legendas divertidas. Saber que existem por aí agências de casamentos, festivais gastronômicos, encontros solidários, alguma caridade e, se não for pedir muito, poder acreditar na honestidade dos políticos. Minta para mim, madame, antes que só me sobrem os Classificados também aos domingos.

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