CÉLIA MUSILLI - Yá Mukumby, Ògún ye!
Primeiro fiquei sem palavras, depois veio a dor profunda como um som de atabaques. A notícia de que Vilma Santos de Oliveira, a Yá Mukumby, tinha sido assassinada junto com sua mãe e sua neta chegou na madrugada do último sábado, quando eu estava em São Paulo, e chorei sozinha, sabendo que Londrina era só pranto. Insone, revi cenas da minha convivência com ela, quase uns 20 anos, porque meus filhos eram bebês quando a conheci.
Dona Vilma era a mãe espiritual de muita gente, a Yalorixá que cantava bonito no seu Ilê e também subia aos palcos porque além de mãe era artista e dizia: "os negros fazem tudo cantando, se alegram cantando, sofrem cantando". Então, tentei um canto de Ogum para atravessar a dor, um ponto que me tirasse da estupidez daquela notícia que chegou de madrugada e me flagrou sozinha esperando a manhã para ter certeza de que aquilo era um pesadelo. Não era e continuei revendo as cenas.
Dona Vilma no seu quintal colhendo pimentas, me dando folhas para um banho, me aconselhando nos momentos delicados, sem nunca julgar, só amparando, apoiando as ideias criativas, algum projeto de cultura, alguma coisa que elevasse a cidade a um patamar de arte e alegria. Além de mãe era guerreira, militante do movimento negro e nos ensinava palavras em iorubá para que pudéssemos também saudar os santos: Eparrei para Iansã, Atoto para Omulu, Ora iê iê ô para Oxum, porque Oxum é a Nossa Senhora da Bondade, como Dona Vilma.
Tem gente que nasce com estrela, a Yá nasceu. Veio de Jacarezinho e virou londrinense de coração. Seu nome fica inscrito na cidade por sua liderança espiritual e política, fica inscrito na memória porque nos tocava com a arte, a religião e a alma africanas, tudo bonito e nobre. Revejo suas fotos, tinha um olhar de atravessar paredes, derreter o gelo da indiferença, olhar de enfrentar preconceitos, desafiar estruturas que colocam o negro em posição subalterna. Em alguns momentos, ela pegava a espada de Ogum e guerreava nas ruas, nas tribunas da Câmara, nos carnavais em que abria o afoxé com um toque solene e sua presença magnífica. Gostava de vê-la com seus turbantes, as roupas brancas ou coloridas, uma personagem de sonho para quem nunca viu a África. Para mim o continente se materializava assim, com Yá Mukumby no terreiro e nas festas, cantando sambas de roda, nos ensinando os passos, nos dando abraços que nos afundavam em seu colo. Para mim o continente se materializava assim, com a Yá concentrada em seus trabalhos, abrindo caminhos com pólvora, ensinando o amor ao próximo com o mel da sua própria doçura.
É difícil imaginar sua casa vazia, sua presença era tão grande, transbordava o espaço e nos preenchia de esperança, redimensionava as atitudes como pontos de partida para as mudanças. Batalhou de corpo e alma, participou de grupos de estudo na UEL, ajudou a implantar as cotas para que os negros ingressassem no ensino superior, com orgulho de sua cultura e suas origens, para o bem comum de um mundo diversificado chamado Brasil.
Soube que no assassinato da Yá quebraram santos na sua casa. Não creio que tenha partido dela ou de sua família o ato de quebrar imagens que lhes eram caras, o mais óbvio seria atirarem sapatos, pratos, panelas, o que tivessem à mão. Os santos quebrados na sua morte para mim são indício do preconceito que viceja na sociedade contra os negros e sua cultura. Um preconceito disfarçado que borbulha e transborda nos momentos de ódio, quando se quebram os santos. O fanatismo de algumas religiões brancas me parece não apenas um caso de polícia, mas um caso de saúde pública. A raiva adoece e transtorna.
Mas volto à Yá em nome da doçura e lá longe ouço sua voz de embalar crianças, seu canto profundo, vejo seu exemplo de fazer o bem, seus sinais que deixam um rastro de luz em Londrina. Dona Vilma de Todos os Santos agora é estrela, aliás, sempre foi. Deve ser saudada no infinito de sua memória, memória ancestral que vem da África. Então, repito palavras que aprendi com ela numa língua que tem coração: Yá Mukumby, Ògún ye!
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