No início de 2012 tomei conhecimento do filme "Belo Monte, anúncio de uma guerra" em fase de produção. Uma equipe fez três expedições ao Xingu para fazer um documentário sobre o que significa a construção da usina de Belo Monte. Independentemente da opinião de cada um sobre o assunto – tenho a minha e é clara até mesmo em função da minha atenção ao projeto – preciso dizer que o documentário, que contou com doações de milhares de brasileiros para sua edição, teve um final feliz. O filme, dirigido por André D’Elia, é maravilhoso sob o ponto de vista artístico, além de um documento que vai ficar na História.
A começar pela ideia de um projeto colaborativo - com brasileiros de norte a sul doando o que pudessem, desde R$ 10,00 até R$ 1.200,00, conforme o site do projeto - eles levantaram os R$114.000,00 necessários para finalizar o filme e colocá-lo no Youtube (basta procurar pelo título ou acessar http://www.youtube.com/watch?v=091GM9g2jGk) e agora a campanha continua para que o filme chegue aos cinemas, não só do Brasil, como do mundo.
O documentário traz entrevistas em que se ouvem todos os lados, como é praxe em qualquer trabalho sério. Está na boca de cada entrevistado suas opiniões sobre construir ou não Belo Monte e, sinto muito caras-pálidas, mas fico com índios.
Por quê? Porque é, no mínimo, um privilégio viver num país onde existem índios, de várias etnias, com seus costumes e línguas, suas pinturas corporais identificando cada tribo pelo desenho, sua arte, enfim, sua cultura. Não bastasse, apesar do discurso de quem só vê cifrões e "expansão de fronteiras agrícolas e pecuárias para o bem do Brasil", há um bem que deve estar acima de qualquer interesse, a preservação do que o Brasil tem de melhor, do que diferencia o país de qualquer outro do mundo, do que faz os estrangeiros estalarem o olho por ganância ou deslumbramento: as florestas, os rios caudalosos e toda vida que alimentam – fauna e flora. É algo assim como o paraíso perdido.
Já estive no Maranhão, Pará e Amazonas. São visíveis os rastros da "civilização" deixados nos caminhos por onde se avança. O desenvolvimento muitas vezes convertido em miséria na beira das estradas, numa população indigente para a qual a promessa de melhorias não passou de esperança que voou como os contratos de benefícios que os governos firmam e depois esquecem. Aqui no Paraná, a situação não é diferente. Ou alguém vê progresso na região de Guaíra, além da ilegalidade e da descoberta de 3 mil portos de contrabando de mercadorias e drogas identificados pela PM, esta semana, à beira do Lago de Itaipu? Cadê o progresso que a usina nos traria? Estou procurando as pegadas do progresso desde os anos 80 e não me venham com planilhas, porque me interesso por condições de estradas, escolas, hospitais e empregos decentes. Faz décadas que vejo uns indiozinhos desnutridos por ali, vendendo balaios, além das ruas sujas deixadas pelo comércio de bugigangas. Isso é progresso?
Volto ao documentário "Belo Monte - anúncio de uma guerra" feito de paisagens, falas, culturas, trâmites políticos, documento valioso.
Separei falas dos índios e ribeirinhos que me emocionaram. Mas não basta reproduzi-las aqui, vale assistir ao filme e observar como os índios gesticulam, mostrando a indignação pelo possível alagamento do que consideram o seu planeta, a natureza que é dádiva. Uma velha índia, com seu bodoque, faz uma coreografia espontânea apontando o que existe ao redor e poderá ser destruído. Ela diz: "A natureza é bonita. Olha aquela árvore (vira-se para a esquerda), olha aquela outra (vira-se para a direita) e aquela (olha para trás). Elas existem porque os índios não constroem barragens." Sua dança, apontando a natureza é o melhor protesto que já vi. E antes que me perguntem o que fazer para obter energia, respondo: somos o país mais ensolarado do mundo, vento também não falta. Hidrelétrica é projeto obsoleto no século 21, usina nuclear, nem se fala. Será que daremos o salto para o futuro ou cairemos mais uma vez na rede onde todos os peixes chegam mortos?

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