A população pobre volta à cena do debate, manifestações do seu desejo ressurgem nos espaços públicos, hoje o povo não só ocupa praças, mas shoppings, cenário de um Brasil que, dizem, aumenta a capacidade de compra e de consumo: na euforia, todos querem uma Bugatti.
Antes que alguém torça o nariz para rebater argumento de transformação que inclui o rolezinho - fenômeno que acontece na batida do "funk ostentação" - é bom lembrar que estamos vendo no espelho embaçado da periferia valores disseminados em anos de publicidade como valorização da aparência, ênfase nas marcas, o gosto pelas etiquetas que a juventude pobre também deseja por representarem um modelo de sucesso. Há muito tempo as pessoas não são valorizadas pelo conteúdo, a inteligência, o preparo. A situação das escolas públicas revela esta condição num parâmetro feio e mal cuidado, um lugar de pouco prazer desvalorizado como espaço de conhecimento, este sim, cada vez mais, um artigo de luxo.
Jovens da periferia ocupam em massa os shoppings, reivindicam uma visibilidade que os tire das esquinas onde já fazem o rolê, em busca de um espaço social de integração ou, simplesmente, mistura. Não importa se o centro de compras fica no Morumbi ou em Itaquera. Sendo da periferia, por que apenas costurar o jeans em fábricas se querem usá-lo? Por que apenas embalar o tênis, se querem também calçá-lo? A expressão deste desejo na ocupação dos shoppings incomoda parte da sociedade de maior poder aquisitivo, ainda que esta ocupação não se dê pela aquisição de fato mas pelo imaginário: os rolezeiros apenas transitam onde os outros compram, eles nem mesmo têm dinheiro para aquelas mercadorias.
Da minha parte, preferia que o rolezinho viesse embalado num samba, não no funk ostentação, colagem musical de um ritmo estrangeiro que adquire estética bizarra equiparando o desejo dos moleques com o dos bacanas: "eu tô ostentado/ mais que o Eike Batista// os muleque têm o dom/ comprei o polo norte/ pra gelar o meu chandon// este é o funk da ostentação/ peguei minha bugatti e fui curtir o verão".
Mas pensando bem, o delírio de consumo é a reprodução de um modelo que faz todas as classes revirarem os olhinhos: Vocês querem lagosta? Vocês querem Moët Chandon? Perguntaria Chacrinha se estivesse vivo, ecoando a vontade do povo que sempre quis bacalhau em vez de carne de segunda. A moçada vai fundo, reedita a vida do rico em jargão de pobre e mostra que gente vale tanto quanto mercadoria na sociedade que os rejeita. Antes deles, os donos do mercado e os gênios da propaganda moldaram o mundo segundo as etiquetas. Agora, assustados com o rolê que transforma o universo das vitrines em enorme paisagem eclética, "consumidores do bem" atiram a primeira, a segunda, a terceira pedra, como se pobres não pudessem desejar o mesmo que a elite. "O desejo dos moleques seria compreensível se quisessem fazer rolês em bibliotecas", dizem alguns que, na verdade, pouco compram livros.
O rolezinho, que nasceu como forma de diversão que inclui "zoar" no universo de consumo, transformou-se em ato político pela repressão. Fossem os moleques brancos, com poder aquisitivo e cheirando a Bvlgari não seriam reprimidos, o rolezinho seria flash mob, designação estrangeira para mobilizações espontâneas em locais públicos. Com a repressão pela falta de compreensão de um fenômeno que inclui crítica e desejo de inserção, uma sociedade despreparada para enxergar sua própria cara chama a polícia para descer o cassetete na juventude pobre e irreverente, com a conivência da administração dos shoppings paulistanos que anunciam multas de R$ 10 mil para quem participar do rolê. Multa de R$ 10 mil? Os administradores devem achar que os moleques vêm de Estocolmo e têm conta nos bancos da Suíça. A "sociedade do bem" deveria parar de sacar cartões de crédito para sacar que do outro lado dos muros há uma população pulsante que fez a antropofagia do consumo reivindicando Moët Chandon pelo imaginário escrachado do funk, reprodução de um modelo de ostentação consagrado pela elite como meta de gente decente. Então, tim-tim rolezeiros, que o caldo entorne de vez nas taças porque a pobreza no Brasil atravessou séculos no gelo.

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