Apatia significa ausência de pathos, ou seja, ausência de perturbação. Mas até os santos eram perturbados no seu arrebatamento pelo divino. Imagino o que não foi o êxtase de Santa Tereza, trespassada pela ''flecha de amor de um anjo'' num encanto místico. Nem Santo Agostinho - para quem ''Deus é intuição'' - conseguiu a paz almejada pelos filósofos. Imaginem que uma vez ele foi assistir a um espetáculo de circo, supondo que não seria ''contaminado'' pela folia. Ledo engano, foi completamente arrebatado pela arte. E penso que se até ele foi, imaginem eu.
Digo isso porque nos fundamentos da Filosofia há a idéia de uma busca terapêutica de paz e tranquilidade, que redundaria, enfim, na felicidade. Pura teoria, os filósofos - como os santos - são totalmente arrebatados pelo pathos da busca de alguma verdade e mobilizados pela vida. Nenhuma busca intensa tranquiliza. Pensar mexe demais com a gente, assim como analisar, ler, aprender, esquecer, duvidar e sentir. Toda energia que se movimenta provoca naturalmente uma ebulição, um sentido de alerta que percorre todos os sentidos. Então, a paz almejada talvez seja atributo dos frios, dos ausentes, dos mortos, porque enquanto nos mobilizamos pelas coisas, sejam ideias, sentimentos, crenças ou causas, ficamos imensamente perturbados.
A perturbação não é de todo ruim. Muitas obras não existiriam se os autores não passassem dia e noite perturbados por uma ideia. Imagino o que não foi o inferno e o paraíso de Dante na realidade, criando todas aquelas cenas. Imagino todos os sons e ruídos que mobilizaram Beethoven para compor a Nona Sinfonia.
Há autores que, pelo menos diz a lenda, escreveram romances inteiros em poucos dias e os poetas são pegos por uma verdadeira febre de criação, sendo visitados por versos que pedem urgência e polimento.
Por isso, encontrar a paz demanda às vezes um retiro, de modo que as ideias que nos mobilizam constantemente sejam vistas como nuvens, coisa de cinema mental ou cinema transcendental, se preferirem imaginar assim o exercício da gente se apartar dos próprios pensamentos, limpando a mente como os adeptos da meditação. Sempre me interessei pela meditação, embora não a pratique com afinco. Fiz algumas experiências e quando meus filhos gêmeos eram ainda bem pequenos, numa noite em que não queriam adormecer e pediam uma história atrás da outra, propus que ''limpasssem a mente'', como último recurso para sossegá-los. Então, um deles, me fez a seguinte pergunta: ''Mas mãe, eu limpo a mente deixando tudo preto ou tudo branco?'' Então, percebi a inquietação latente na própria pergunta e soube que uma vez nascidos neste mundo, já na mais tenra idade, temos a cabeça e o espírito povoados por ideias, imagens, sensações, num redemoinho que nos chama sempre à cena, à ação, ao olho do furacão, embora a gente passe a vida almejando a paz que significa, em determinados momentos, zerar tudo.
São muitas as entradas para a mente humana e, talvez, poucas as saídas. Certa vez, perguntei a um profissional se a psicanálise não nos traria mais ansiedade, à medida em que mergulhamos fundo em tantas histórias do fundo do baú que vão emergindo à consciência. Pensei, neste caso, se a análise não me levaria aos campos de batalha em vez de ao encontro da paz. E soube que só encontramos a tranquilidade na elaboração que leva à compreensão dos processos. Em síntese, talvez a gente só se livre mentalmente daquilo que digerimos, tal e qual num processo corporal. Enquanto isso não acontece, somos assaltados por uma gama de pensamentos e emoções que são o próprio impulso de procurar soluções. Assim, não tento mais desmobilizar as forças que batem todo dia à minha porta, pedindo entrada ou saída. Recebo-as como visitas e, normalmente escrevo, sentindo que a criação é vida. E que a vida é puro movimento e inquietação.
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