Continua a polêmica sobre as biografias não autorizadas e o tema toma outros rumos. A turma do movimento Procure Saber – pilotado por Paula Lavigne, que faz o papel de procuradora de grandes nomes da música - divulgou um vídeo, esta semana, onde reafirma sua disposição de lutar pelo direito à privacidade ancorada num artigo do Código Civil que se confronta ao direito da livre expressão, contemplado pela Constituição brasileira. Na verdade, na forma da lei, os dois princípios prevalecem causando às vezes muita confusão sobre seus limites. A matéria que diz respeito ao direito à privacidade será julgada pelo STF agora em novembro, podendo o julgamento contar com a presença dos artistas fazendo a defesa do que consideram uma questão inalienável de privacidade, ou seja: ninguém poderá escrever sobre a vida de ninguém, sem passar pelo filtro do biografado. Neste caso, seríamos definitivamente, um país de biografias chapa-branca.
Contradições à parte, dentro mesmo do que a lei permite – assegurando liberdade de expressão de um lado e o direito à privacidade de outro -, o vídeo do movimento Procure Saber – que conta com Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Gilberto Gil justificando suas posições em favor das biografias com autorização prévia – me pareceu, à primeira vista, um "melô do arrependimento", tendo em vista a confusão gerada por declarações anteriores dos artistas. No momento, eles parecem não saber direito como se posicionar, não querem levar a pecha de censores, mas também não querem suas vidas em livros não autorizados. Achar um modo de conciliar as coisas vai exigir a arte de andar com sombrinha sobre um fio de arame.
No último domingo, no Fantástico, Roberto Carlos vacilou bastante ao responder à reportagem porque apoia a censura. A impressão é que o Rei desconhece a legislação do reino, embora já a tenha usado largamente quando recorreu à Justiça ao sentir-se prejudicado com uma versão da sua história. Ou seja, já existe legislação para coibir abusos, não precisamos de mais artigos para este tipo de blindagem.
A discussão que toma a imprensa e as redes sociais revela a opinião de uma ala que defende, até mesmo, que "as biografias são desnecessárias." Se isso prevalecer, vamos enterrar no Brasil, de forma inédita, um gênero literário que existe desde a Antiguidade: a Bíblia não deixa de ser uma biografia de Jesus. Outros justificam sua posição afirmando que "nada acrescenta a uma obra saber do autor". Bobagem, a vida dos autores fundem-se sim a suas obras e, embora existam métodos de análise que defendam uma relação estrita com a criação, dados biográficos acrescentam bastante à compreensão da literatura. Não se descarta, por exemplo, a evocação autobiográfica de Graciliano Ramos em Angústia, nem a imbricação de vida e literatura em Recordações do Escrivão Isaías Caminha, de Lima Barreto.
Existe ainda quem considere as biografias um gênero sórdido por revelar detalhes incômodos da vida das pessoas: um que bebia demais, outro que era mulherengo, outro ainda que usava cocaína. Da minha parte, posso dizer que li biografias magníficas, ainda que realistas, sem que deponham contra a dignidade dos biografados. Gostei de Chatô, o Rei do Brasil, de Fernando Morais, adorei Clarice, do americano Benjamin Moser que, na minha opinião, é o melhor retrato já feito da autora de "Perto do Coração Selvagem". Moser, ao saber que as biografias não autorizadas correm risco de extinção no Brasil, escreveu a Caetano Veloso uma carta que foi divulgada na imprensa. Ele diz: "Não é questão de dinheiro, Caetano. A questão é: que tipo de país você quer deixar para os seus filhos? Minha biografia foi elogiosa, porque acredito na grandeza de Clarice. Mas liberdade de expressão não existe para proteger elogios. Disso, todo mundo gosta. A diferença entre o jornalismo e a propaganda é que o jornalismo é crítico. Não existe só para difundir as opiniões dos mais poderosos. E essa liberdade ou é absoluta, ou não existe." Agora é torcer para que prevaleça a razão, sem vídeos do Procure Saber que parecem mais adoçantes artificiais do que depoimentos sinceros.

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