Estamos na primavera e as cigarras já fazem o verão. Várias vezes ao dia cantam de forma alegre e barulhenta, um zumbido que ecoa no tempo e nos leva à fábula de La Fontaine, na qual elas foram declaradas protagonistas do 'ócio criativo', bem antes de Domenico de Masi criar a expressão, buscando explicar o que seria uma relação equilibrada do homem com o trabalho.
No conto de La Fontaine as formigas são workaholics, não compreendem o lazer e preferem continuar eternamente carregando folhas, acumulando bens, ainda que não precisem assim de tanto estoque.
No coletivo humano, temos mais formigas do que cigarras, uma relação mais evidente depois da Revolução Industrial que instalou máquinas ao redor do planeta e nem por isso poupou o homem que se tornou a extensão das máquinas, um apertador de parafusos, um balizador de botões. Hoje mesmo, no feriado em homenagem à Padroeira do Brasil, sento-me ao computador ouvindo as cigarras. Podia ao menos cantar uma musiquinha. Está certo que criar palavras é quase o mesmo que sair cantando. Mas me falta o despojamento das prima-donas que se esgoelam lá fora em uníssono, cigarras que cantam para atrair parceiros. Que beleza! Se fossemos cantores apaixonados, o mundo seria um imenso coro, acordaríamos fazendo um som ou ao menos um batuque, em vez de só ouvir as cigarras.
Mas sinto-me feliz porque elas cantam. Trazem ao dia um recado de vitalidade, sua música é a prova de que há vida em cadeia e as cigarras cumprem seu ciclo. Vão atraindo pares para o acasalamento. Depois de fecundadas, deixam as ninfas sob a terra e ali elas ficam num sono que pode durar anos, num silêncio protegendo o canto que, um dia, vai invadir outras tardes e manhãs de primavera.
O que se sabe é que as cigarras passam boa parte do tempo cantando. Além de trocar as cascas, deixando por aí carcaças que avisam que dali saiu um inseto novinho em folha. E outra vez invejo as cigarras. Quem me dera deixar as cascas por aí, no clarão solar de uma estação mais quente, como quem tira a roupa velha da existência e se renova, como quem deixa para trás o que não serve mais.
Gosto das cigarras e do seu ciclo. São uma lição de vida bem perto da minha janela. Esvoaçam e cantam juntas. Um ruído ensurdecedor nas estações mais prazerosas do ano. Não quero girar o dial, vou manter-me atenta a esta FM de cigarras. Só música. Deixo o trabalho chato para as formigas. Terminei o texto e não preciso de estoques.
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