CÉLIA MUSILLI - Viagem no tempo
Abra o livro, conte a si mesma a história bordada a ouro. O corpo de carne, o espírito do avesso, o desejo sempre duvidoso de continuar ou parar para brincar de bonecas, recuando no tempo entre fantasmagorias constituídas por lembranças.
Abra o livro, conte a si mesma a história bordada a ouro e salpicada de cinzas. O choro convulsivo da avó que perdeu os filhos - logo ela que tanto queria partir primeiro, sorrateira como aquelas que não querem carregar as mágoas, só as coisas leves, os fios de seda, a luz das janelas em número ímpar do casarão de madeira, onde netos se debruçavam como se viajassem de trem.
Abra o livro, conte a si mesma a história bordada a ouro das suas pequenas vitórias. Os cadernos comprimidos contra o peito, o lápis gasto e um extenso mata-borrão absorvendo as aulas de geografia. Vales, rios e montanhas, pontos cardeais nunca esclarecidos, a Terra de ponta-cabeça na mente que não retém nada por obrigação, mas sonha poemas entre paisagens e acredita que o planeta tem mais belezas do que ameaças.
Abra o livro, conte a si mesma a história bordada a ouro dos amores perfilados, um mosaico de rostos queridos e mãos que fecharam portas, deixando no ar o perfume dos jardins batidos pelo vento que sempre carrega pétalas desprendidas. Bem-me-quer! Mal-me-quer! Depois recolha tudo e guarde na caixa dos objetos desaparecidos.
Abra o livro, conte a si mesma a história bordada a ouro dos seus dias de infância. Gargalhada de criança, borboletas, pipas, pássaros e todos os pensamentos que voam.
Abra o livro, conte a si mesma a história bordada a ouro dos amigos e dos inimigos. Aos amigos, flores, um poema nunca esquecido, a fruta trincada entre os dentes, o sumo de compartilhar para sempre o que não volta, mas vive. Aos inimigos, o esquecimento, porque não há sentido em se julgar eternamente o que já partiu. Então, para que a memória? Antes o perdão de quem não carrega pesos, este é o grande trunfo.
Abra o livro, conte a si mesma a história bordada a ouro destas manhãs que se incendeiam. Dê boas-vindas ao vento da renovação, à luz que não se repete, aos acontecimentos no dia que poderá ser o melhor da sua vida. Nunca se sabe quantas serão as surpresas, por isso é preciso caminhar de coração aberto, como quem acredita nas dádivas do cotidiano.
Abra o livro, conte a si mesma a história bordada a ouro do que ainda não aconteceu. Um futuro de nuvens rosadas e chuvas de granizo, na hora em que esticamos as mãos para recolher pedrinhas e derretê-las sob a língua fazendo profecias, falando de dias melhores, de um sol redondo emoldurando as coisas até estilhar-se na última luz implacável marcando o tempo, o tempo, o tempo que parte como um trem de passageiros, carregando avós e toda sua descendência num caminho que, na soma geral, tem mais alegria que mágoa.
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