CÉLIA MUSILLI - Vamos saber por que falta esparadrapo
Não havia me manifestado sobre a questão dos médicos cubanos. Aguardava para ver consolidada a avalanche de preconceitos que cercam o fato. Estamos inseridos numa sociedade racista, separatista e xenófoba. Uma sociedade onde as bobagens ditas em redes sociais muitas vezes passam batidas, mas quando flagradas mostram todo um viscoso preconceito, aquele lodo afundado nas mentes que brota em situações como essa. Realmente faltam médicos em Rondônia, no Acre, nos Estados do Nordeste. E pergunto: onde estavam os idealistas brasileiros que se recusam a trabalhar nestes lugares distantes e inóspitos, porque lá não encontram condições de exercer a profissão, antes da chegada dos cubanos? Onde estavam estes médicos quando faltou anestesia em Xapuri ou esparadrapo em Caapiranga? Precisou chegarem os cubanos para virem à sociedade reclamar da falta de condições trabalho? Não conseguiram antes se organizar para atender aos doentes por quem prestam juramento de Hipócrates que, neste momento, me lembra palavrinha bem menos elogiosa?
Não preciso dizer que senti vergonha por quem vaiou os cubanos no Recife. Também me envergonho e lamento que uma colega de profissão, a jornalista Micheline Borges, do RN, tenha se expressado de forma tão inadequada ao comparar as médicas cubanas a empregadas domésticas por causa da cor da sua pele. Ambas as profissões são dignas, as palavras da jornalista são uma tentativa de crítica que esboça enorme preconceito. Dizem ainda que o trabalho dos cubanos é escravo, embora muitos tenham invocado a questão humanitária da profissão, mas não vou me apegar só a isso em momento tão grave. Vou mais longe. No início do século 20, meu avô junto com uma leva de italianos chegou ao Brasil para trabalhar em lavouras de café sem nenhum salário combinado previamente, ganhariam por produção e vieram sem nada. Meu avô e seus companheiros, nas primeiras semanas no interior de SP, dormiram num galpão onde à noite tinham a companhia de correções de formigas saúvas. Os italianos nunca tinham visto saúva, também não tinham nenhuma garantia a não ser a possibilidade de "fazer a América" e ficaram na mão de capatazes. Para mim aquelas condições sim foram praticamente escravas. E pouco se questionou, ao longo da história, a oferta de trabalho da oligarquia cafeeira acostumada a proporcionar escravidão de tantas outras formas, fato consumado desde a oligarquia da cana-de-açúcar. O Brasil já recebeu estrangeiros em péssimas condições de trabalho, não me parece ser este o caso dos médicos cubanos, mas a elite da saúde só se lembra de evocar trabalho escravo e falta de esparadrapo quando lhe convém.
A verdade é que muitos moços e moças que saem das faculdades de medicina, jornalismo e outras tantas não têm idealismo, sucumbiram ao consumo numa sociedade em que a medicina está ligada a status, em que a ideia de ser bom profissional é "se dar bem na vida", ou seja, ganhar dinheiro. Podem até ganhar mas nunca serão bons profissionais, falta verve, falta garra, falta vigor para tomar um barco e ir brigar em Xapuri, não só não nas avenidas das grandes capitais brasileiras ou nos aeroportos onde vaiam cubanos.
Por outro lado, também conheço excelentes profissionais de saúde brasileiros. Sempre que preciso vou a hospitais públicos, abdiquei dos planos de saúde por falta de grana e também porque os considero parte da máfia, demorei para acordar do meu pesadelo de classe média que tinha medo de ficar sem plano médico e morrer sem atendimento. Isso também não corresponde exatamente à verdade. No Sul e no Sudeste, nunca morei em outras regiões, sempre fui bem atendida pela saúde pública, não tenho queixas. Ontem mesmo fui muitíssimo bem atendida por uma enfermeira que, acredito, não vaiaria colegas de profissão, notei que é solidária à causa humana, que deve ser a causa eletiva de um profissional de qualquer nacionalidade. Então, vamos à saúde sem fronteiras, à educação sem fronteiras e, sobretudo, à ética sem fronteiras que é o que mais falta neste momento no Brasil. E, principalmente, vamos a Xapuri, só lá poderemos saber por que falta anestesia e esparadrapo.
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