O ano que passou foi um presente que embrulhei de volta para deixar quietinho embaixo da árvore. Dentro dele estão as coisas boas e ruins do ciclo, vistas e vividas como ensinamentos. Guardo mudanças, despedidas e transformações. Guardo abraços, rostos, amizades, lutas e delicadezas,
  A cada ciclo as experiências se sucedem como lições de prazer e angústia, afetos e abandonos, encontros e desencontros porque também a vida sabe embrulhar e desembrulhar PRESENTES.
  O tempo dá a cada acontecimento um significado diferente, diria mesmo que nos acostumamos à ideia de alegria e dor. E aprendemos a não lamentar tanto o que perdemos para poupar os outros. Nada mais pesado do que uma pessoa que lamenta sua vida, que segue de cabeça baixa como se carregasse um fardo, que não acredita na estrela-guia, que perdeu a fé e não se abre ao novo. Não se trata apenas de ser otimista, mas de não fazer do pessimismo um totem.
  Antes ter a gratidão e a compreensão de que aquilo que deixamos para trás também cumpriu seu tempo. E que o vazio que nos visita às vezes cria o espaço necessário para a renovação. Os ciclos da natureza estão aí para demonstrar que tudo acontece num movimento contínuo de vida-morte-vida, desde as plantas até nossas vivências íntimas. A cada temporada, nossos corações terão sementes novas como a romã, vermelhas e maduras, prontas para quem deseja ao menos experimentar.
  Então, se um de nós terminou o ano no vazio que não se lamente, mas celebre a abertura de uma nova passagem. Porque o novo só cresce onde existe espaço, sem ossos e sem lamentações.
  Tudo isso, no entanto, não tem o sentido de não sofrer ausências ou não chorar por excesso de coragem. Coragem demais também maltrata e lágrimas aliviam. Então, sinto, sofro e choro porque ‘‘sem uivar ninguém encontra sua matilha’’. Mas não deixo que as angústias sejam apenas um peso do qual não consigo me livrar, carrego-as como cicatrizes de guerra, mas penso que no seu lugar nasceu outra pele e, em nova pele, me encho de esperança, verde e tenra como um ramo.
  Ainda guardo a salvo a minha esperança. Deve ter um porquê para estes movimentos de maré da vida que vêm e vão, dão e recolhem. Tudo que sei é que em alguns momentos contemplo meu vazio como um tesouro, ou melhor, a caixa do tesouro, pronta a receber novas pedras raras. Apesar de tudo, nunca duvidei do ouro da vida que me deu e me dá tantos PRESENTES. Isso é o que se chama ‘‘magia do tempo’’.
  Então, com um dia de atraso, neste calendário implacável, Feliz Ano Novo a todos os que deixaram suas caixas abertas. E também aos que as fecharam por engano.

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