CÉLIA MUSILLI - Uma queda para dentro
O Paraná é uma terra de poetas, ninguém duvida. Para onde se olha, eles despontam com uma produção vigorosa. Ontem, em Curitiba, Priscila Merizzio lançou seu primeiro livro: Minimoabismo, publicado pela editora Patuá, de São Paulo, com prefácio de Luiz Augusto Contador Borges.
Minimoabismo é um livro que traz temáticas instigantes, a morte é recorrente em situações que extrapolam a condição física. Não se trata da morte "simbolista" elevada ao plano de um retorno prazeroso ao reino de Hades e também não se trata de uma visão pessimista. Trata-se da morte como a perda sucessiva de pessoas, tempos, estados de espírito. Morte que aparece na forma de memórias, como no poema UTI, que a autora dedica "à avó Augusta", com versos que nos empurram à condição de depositários de lembranças, como um emblemático "cemitério de elefantes", porque o bicho homem, como se sabe, tem memória longa.
a madrugada sob um xale de cardume de estrelas e baleias lúmen
bicho outsider da manada
meu coração: cemitério de elefantes
A morte também tem viés de fato cotidiano, este mesmo que está nos jornais e nas TVs e às vezes nos acolhe subitamente como personagens da tragédia, vista por Priscila por uma fresta de cultura contemporânea:
rock and roll melancólico
liberta meu coração do tórax
para ser esmagado por um ônibus
feito a cabeça de meu primo Johnny
A poesia em Minimoabismo é uma leitura abissal de situações particulares, vista sob a ótica do indivíduo e sua dor pessoal, essa mesma que, inserida num contexto literário, promove a identificação coletiva. Nossa dor não deixa de ser a dor do mundo vista em camadas que nos aproximam nos mesmos e inevitáveis eventos.
A mitologia também está presente no livro, mas os deuses descem de seus olimpos sincréticos, domesticados de certa forma por um viés de humor e ironia: "furacão no oceano: Netuno puxa a tampa do ralo." Ou: "Plutão faz guisadinho de Vênus." Assim , os deuses surgem como arquétipos e se expressam de forma humana, ali mesmo na macro banheira imaginária ou nas panelas da cozinha.
A poesia de Priscila Merizzio é imagética, qualidade que ela debita não aos livros, mas ao cinema e ao interesse pela psicologia que transparece na linguagem simbólica. Há ainda uma recorrência ao feminino, abordado através dos estados psicológicos da mulher contemporânea que transforma flagrantes fragilidades em forte expressão poética:
"coração em encostas de desabamento/ habitados por miseráveis mulheres/ abandonadas enquanto sangram/ no absorvente/ entre/ cólicas/ &/ pílulas
Essas metamorfoses, em sucessivas referências à vida e morte, divindade e humanidade, fragilidade e força tornam os poemas de Minimoabismo tão instigantes quanto uma queda no grande vão interior que nos sujeita a descobertas e riscos.





