CÉLIA MUSILLI - Uma imagem emblemática
A foto emblemática de um índio deitado, em posição de guerra, atirando flechas contra a polícia que impedia manifestantes de chegarem ao Estádio Nacional de Brasília, num protesto contra a Copa, ficou na minha cabeça esta semana.
Se fecho os olhos, vejo-a ainda como uma imagem onírica, vinda da uma cultura múltipla que mistura o primitivo sagrado com todos os seus ritos de guerra e paz e o marketing contemporâneo do País do futebol. Se abro os olhos, a impressão onírica se dissipa e o que vejo é a mais insólita realidade.
Durante a semana, vi comentaristas de TV falando sobre o quanto esta imagem deve perturbar os estrangeiros que vêm para a Copa. Europeus perplexos, desses que acreditam que há cobras em Copacabana, devem ter soltado "ohs e ahs!" diante da imagem inusitada. Eu também fiquei estarrecida, mas por encantamento.
Devemos nos orgulhar dos nossos índios que mais de 500 anos depois de toda exploração e barbárie ainda pegam arco e flecha para defender o que acreditam ser sua terra, apesar dos desmandos. Estou entre aqueles que adorariam saber manejar arco e flecha nesta hora para mirar o Itamaraty, o Congresso Nacional e a sede da FIFA. Que as zarabatanas voem e Tupã esteja presente nesta guerra. Quem dera as flechas acertassem também os tolos que julgam que devemos engolir a Copa para não arranhar a imagem do País, quando nos arranham as vísceras todos os dias com imagens bem menos líricas do que um índio com arco e flecha atirando contra o céu do Planalto. Nossas imagens cotidianas são de violência explícita, pobreza cultural e urbana de grandes metrópoles que um dia foram cobertas por florestas e hoje surgem como a nova selva de onde se retirou a fauna e a flora para se plantar um humano que não vingou, adoeceu em séculos de desigualdade.
Ninguém se preocupou se os estrangeiros veriam as favelas, os becos da cracolândia, a infância pobre que nos para nos semáforos em busca de um trocado que em nada vai mudar suas vidas. Antes, preocupam-se com a imagem selvagem do índio atirando flechas e já falam em lhes confiscar a arma branca nos protestos. É verdade, as flechas podem matar, como também mata a inalação excessiva de gás nos protestos pelo País que já causou a morte dos "desavisados". Este foi o caso da gari Cleonice de Moraes, de Belém, e do ator Fernando da Silva Cândido, do Rio, ambos morreram após inalarem gás lançados pela PM em protestos.
Então, se forem confiscar as flechas, penso que devam também proibir o gás e a cavalaria, protagonista de cenas que voltam como um pesadelo datado, dos anos 70. De novo a polícia e o exército estão nas ruas para conter o povo à custa de cassetetes e cavalos, isso me lembra a ação daqueles generais de óculos escuros que não enxergavam um palmo à frente do nariz e implantaram na nação um retrocesso longo, um chip ideológico de triste memória.
Fico com a imagem do índio atirando a flecha, mais que um artigo isso merece um poema pelo resgate lírico e guerreiro. Um poema para a Pindorama tardia que renasce nos protestos do século 21 como vozes que nunca se calaram e provocam rumores que trazem uma nostalgia das matas. O cenário é urbano, as bombas explodem, constroem-se hidrelétricas, as aldeias desaparecem do mapa, uma tristeza profunda chega junto com o desejo de gol. Nesta Copa, o mantra é outro, que cada um aja de acordo com sua consciência. Tudo bem que muitos de vocês estejam do lado dos mocinhos, mas vou ficar do lado dos índios outra vez.
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