CÉLIA MUSILLI - Uma carta
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sábado, 01 de junho de 2013
Do Igapó só conheço o espelho, as águas pacíficas, nosso oceano, durante anos morei numa de suas margens, habitada também por garças e quero-queros. Ah Igapó, como te quero, e perto deste 5 de junho, Dia Nacional do Meio Ambiente, a distância quis te rever com outros olhos pois soube que se prepara mais um estudo: vão investigar suas águas e sedimentos.
Penso primeiro no seu curso, dividido em I, II, II, IV lagos, vida líquida nascendo ao sul da cidade, cortando bairros, ruas, correndo lento, manso, às vezes quase parado para a milésima fotografia. Eu mesma te retratei de forma amadora, com meu celular, dezenas de vezes, da sacada de uma casa que tinha a sua paisagem ao fundo, tão bonita que fiz dela a frente, o elo que me ligava a Londrina, onde me debrucei de manhã à tarde para ver o sol chegar e sair, refletido como um deus em teu espelho de Oxum.
Igapó, você faz parte dos 3% de água doce da Terra, bacia minúscula, ínfima, tão vital a uma cidade que se converteu no seu cartão-postal, com cheiro de maresia quando os pescadores sonham nas suas margens pegando lambaris rebeldes que saem golpeando o ar até serem muitas vezes devolvidos, alegres por terem se livrado mais uma vez das frigideiras. Sempre rezo para que os pescadores continuem piedosos e penso que o bico das garças é também destino digno para um peixe. Mas de bicho para bicho ou de bicho para homem, seu alimento é bem-vindo.
Li agora que vão pesquisar suas águas, o que há no seu fundo, penso nas surpresas gratas e ingratas que podem emergir desta busca de matéria, lixo, resíduos, detritos e - por que não? sentimentos, porque um lago deve sentir o baque do seu uso.
Bem lá no íntimo, no seu coração de H²O, haverá chumbo, metais pesados, substâncias tóxicas, venenos silenciosos como no peito dos homens? Quais as mágoas do Igapó, se já recebeu esgoto e restos de contaminação urbana, entulhos e detritos? Sei que ficou bem mais rasa sua profundeza, assoreada pela urbanização sem limites que se educa lentamente e que precisa de datas nacionais para sacudir a lembrança de que a vida no planeta Londrina depende de atitudes de respeito.
Então me diz, Lago Igapó, quais são suas mágoas? Terem despejado no seu coração sujeira e chumbo? Fósforo e enxofre? Todos os elementos suspeitos das tabelas periódicas, os vilões da química, na contramão da sua vida orgânica? Haverá no seu fundo cobre, platina e ouro? Ou apenas sapatos velhos, braços de sofás de onde se retiraram as visitas, peças de computador, pedaços de concreto, azulejos como já vi em sua margem cobertos de musgo, aparentando uma falsa antiguidade que me fez pensar em naufrágios?
Fiz poemas nas tuas margens, resgatei histórias e civilizações, em sua bacia tão pequena guardei mundos e fundos, me encantei com peixes e libélulas, assoreei meu choro quando saí de Londrina levando na memória seu curso torto, de bairro a bairro, ligando a cidade como uma serpente líquida.
Então, por toda esta lembrança, viva como o que resta de plantas e peixes, te celebro por antecipação neste Dia Nacional do Meio Ambiente torcendo para que o estudo que vai custar tão pouco, R$ 134 mil ao governo do Estado, ajudem a restaurar sua saúde no futuro com ações concretas que te deem limpeza e vida longa.
A água, nem preciso dizer, é importante para os seres vivos, os dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio formam a composição de um dos bens mais precioso do planeta, ainda mais sendo doce, pronta para irrigar e umedecer a vida seca das cidades.
Assim, te celebro Igapó, lago de nome indígena que significa "transvasamento de rios" e penso em quem ainda habita suas margens, namora em suas nascentes, contempla sua vazante, na ponte final de onde vemos a represa virar cascata num paredão de concreto.
Seu destino deve ser o que há de mais íntimo a ser preservado na cidade, seu coração.
Te beijo de longe e torço para que suas águas se aprofundem.



